Sendo professora de música eu deveria estar sorrindo, pois quem canta seus males espanta, não é mesmo ?
Fui contratada a princípio para lecionar na periferia de São Paulo. Entrava assustada, pois a aparência dos alunos era de meter medo - verdadeiros chefes de quadrilha, ferozes, taciturnos, mas aos poucos percebi que era só isso mesmo : aparência. Por trás das máscaras, havia espíritos alegres e muita originalidade. A maioria deles tocava tamborim ou pandeiro, alguns violão. E tinham ritmo, os danadinhos!
Fiz um bom trabalho aproveitando - me da criatividade deles - organizamos um festival de funk e inventamos letras didáticas bem engraçadas sobre as matérias mais espinhosas para eles: português e biologia. Os outros professores se beneficiaram com o trabalho e aderiram à música para suavizar as asperezas das lições.
O problema é que a colaboração dos alunos parava pelo popularíssimo. Não queriam saber de canto coral, teoria musical ou música erudita. A muito custo consegui preparar um coral para a formatura. Como ? Com pandeiro, atabaque, samba e toda a galera rebolando na maior algazarra - tudo afinadíssimo, no maior capricho, o público delirou, pois a chatice da solenidade foi quebrada.
No meu segundo ano de profissão consegui a tão almejada vaga em escola particular. Que diferença! Jovens bonitos, cheirosos, elegantes e bem educados. Bem, assim eu os julguei a princípio, até descobrir - me impotente ante o zum-zum incessante, os risinhos, as piadinhas, os bilhetinhos, as carinhas sonsas que me dirigiam os olhares mais cândidos.
Eu quase chorava de frustração, pois aqueles alunos não produziam nada - desafinados, sem ritmo, alienados e preguiçosos. O pior foi quando descobri como eles me apelidavam fora da classe. A Aloprada. A Louca. A Estressada.
Aí não consegui mais me conter:
- Vocês não passam de um bando de tupiniquins! Que digo ? Pois se nem a cultura tupiniquim vocês conhecem! Aposto que nenhum de vocês é capaz de me dizer quem foi o compositor brasileiro que morreu o ano passado. Vamos, falem!
. As famílias mais importantes da região, as mais ricas, estavam ali representadas por um ou mais pares de olhos: os Taramelas, os Garibrózios, os Tolarricos, os Picolinos... Fitei um por um aqueles rostos.
Veio - me então a idéia maldosa:
- Gente! Vocês não se lembram? O ano passado morreu Heitor Villa lobos!
Esperei pela gargalhada. Os alunos me encaravam sérios, assim com jeito de ponto de interrogação.
Olhei - os, então, triunfante:
- Que vergonha! Sei que muitos de vocês estudam música. Alguns tem piano em casa. Você aí , é neto de um pianista. E nenhum de vocês, nenhunzinho, lembra - se da morte de Villa Lobos ?
- Eu me lembro, professora. Foi em outubro. Fizeram um especial na Globo.
- Eu também me lembro. A vida dele saiu publicada na Veja.
E para meu assombro, aquilo virou delírio - um por um, foram se lembrando, cada vez com mais detalhes, do enterro, das notícias no jornal, das músicas...
A idéia maldosa não perdeu a ocasião:
- Pois bem, alunos, na próxima aula quero que me tragam um trabalho sobre Heitor Villa Lobos. Quem trouxer ganha três pontos positivos na nota.
- Pode ser em grupo?
- Pode.
Aguardei na maior excitação a hora da minha vingança. Entrei na classe antegozando a vitória. Mas qual! Ao invés da expressão envergonhada, encontrei três trabalhos cuidadosamente datilografados sobre a minha mesa.
Coloquei uma música para a classe ouvir enquanto eu folheava os trabalhos. E foi assim que descobri, entre outras coisas, que Villa Lobos morrera em um acidente de avião, em Angra dos Reis, durante uma tempestade, não tendo seu corpo sido encontrado apesar do auxílio prestado à família por Chico Xavier e pela mãe Dinah.
O compositor começara sua carreira muito cedo, como guitarrista do conjunto Somália Affaire, participando depois do grupo Paranóia Alucinada; fora agraciado com o prêmio Nobel de Música por ter composto a mundialmente famosa ópera A Ida, e ganhara um Oscar pela melhor trilha sonora no filme Capitu, dirigido por Nelson Rodrigues.
Resolvi fazer o jogo deles. Pedi, em voz neutra, que me mostrassem as revistas pesquisadas, lamentei a ausência de ilustrações.
- A revista não era minha, professora. Minha vizinha emprestou a Veja. Ela viajou ontem para a Europa e só volta daqui a dois meses.
- Eu também não tenho a revista. Minha prima emprestou uma edição especial que saiu na época, mas ela é de São Paulo e foi embora hoje pela manhã , levou a revista junto.
- E você ? Seu pai, dono de loja de discos, deve ter algo dele, não?
- Ah, não, professora, meu pai não tem nada. Ele vendeu todos os discos o ano passado e não ficou com nenhum para nós.
E a turma me encarava, vitoriosa, no maior descaramento.
Tirei da bolsa um livro, abri - o e dei - o à aluna mais próxima :
- Queira ler, por favor.
- Heitor Villa Lobos ( 1881 - 1995)
- É isto que está escrito?
- Não, senhora professora, o seu livro tem um êrro de impressão. Aqui está escrito outra data, mas evidentemente é um engano, pois todas nós sabemos que Heitor Villa Lobos morreu o ano passado.
Em silêncio, os rostos inocentes - eu sentia - aguardavam a reação da Louca, da Aloprada.
A sorrir, eu pedi que chamassem a diretora e que lessem para ela em voz alta tal biografia ímpar do grande vulto nacional.
A diretora ouviu em silêncio, impassível. Ao término da leitura, soou o sinal o professor de matemática entrou. A diretora saudou a classe e retirou - se. Eu retirei - me também, a passos lentos, cabeça erguida e dirigindo - me à diretoria, apresentei minha demissão.
A diretora foi mais do que compreensiva : foi solidária. Demitiu - se também.
É por isso que hoje, nós duas nos sentamos à beira do lago, nos sábados à tarde, a vender batatinhas fritas.
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