Kátia retocava o batom, sentada no sofá. Pintava - se diariamente para jantar, desde que Abraham habituara -se a vir todas as noites a casa dos Fragosos.
Rolando, debruçado à janela, viu - o primeiro e exclamou:
- Alzira, venha ver o pacotão que traz o Abraham. Que será ?
- Será que ele finalmente traz um presente para Kátia ? Já não era sem tempo, minha filha.
Kátia retrucou:
- Ele não precisa comprar meu amor com presentes.
- Comprar? - repetiu Alzira, admirada - Quem é que está falando em comprar, que menina! Afinal, é natural um rapaz trazer flores, bombons, uma bobagem qualquer para a namorada, mas ele, ele nunca te trouxe nada, nem no Natal.
¬- Ele não é cristão.
- E nem no Ano Novo. E nem retribuiu os presentes que destes a ele, que eu sei que destes outros presentes a ele, não negues. Além disso, ele come aqui todos os dias, manda a etiqueta que ele traga rosas ou um vinho para a dona da casa, mas não, o teu Abraham nunca me disse sequer : “Obrigado pelo jantar, Dona Alzira”, não elogia a comida e nem ao menos...
- Que implicância! Tu bem vês que ele gosta da comida.
- Da comida, sim, que ele come como um estivador, mas de nós...
- Ele não vem aqui para ver vocês e sim para me ver.
- Nem de ti ele gosta, malcriada, que ele não te trata bem, te critica, te controla, não te faz um agrado.
- Ele está aí - alertou Rolando.
Kátia precipitou - se para a porta, toda sorrisos. Abraham deixou - se beijar no rosto, um tanto constrangido e sentou - se no sofá sem dizer palavra, não sabendo o que fazer com o pacote. Alzira adiantou - se:
- Boa noite, Abraham. Como vais? Deixa este embrulho sobre esta mesinha.
- Aceitas um drinque, Abraham ? - ofereceu Rolando.
Servidos os drinques, o silêncio durou poucos segundos. Abraham dirigiu - se à namorada:
- Vistes a cintilografia da Joana?
- É um nódulo quente. Vamos operar ?
A conversa prosseguiu no mesmo teor. Rolando, vagamente inquieto, engoliu seu uísque.
- Que tal jantarmos ? - propôs Alzira - Senão a sopa esfria.
- Não gosto de sopa - disse Abraham.
- Pois vais experimentar - insistiu Alzira - Um delicioso creme de aspargos.
À mesa, o médico continuou sua conversa hermética com a namorada.
- Preparei a palestra sobre tireoidites autoimunes que ...
- A maionese está deliciosa - comentou Rolando.
- Gostaste ? -sorriu Alzira - Prova o frango. Tirei a receita de um programa de televisão. Às vezes a TV traz alguma coisa boa, não é? Gostas de assistir TV, Abraham?
- Não.
- Nem as novelas? - e como o outro não respondesse, ela prosseguiu - Nem o jornal falado? Nem o Sílvio Santos? Fala!
- Mamãe! Basta! Daqui a pouco estás a falar de programas de calouros!
- É mesmo! Assistes a programas de calouros, Abraham? Enfim, que fazes, estudas a noite toda ? - continuou Alzira.
- Às vezes - respondeu ele.
- Kátia estuda todas as noites até alta madrugada - disse Rolando - É uma vida terrível, a de vocês.
- Sabes cozinhar, Kátia ? - perguntou Abraham.
- Faço pizzas prontas.
- Pizzas e brigadeiros! Precisas aprender a cozinhar.
- Só se for da meia noite às seis - resmungou Alzira.
Abraham acabou de comer uma fatia de pudim e com sua própria colher retirou mais uma porção da travessa. Alzira, contrariada, virou o rosto.
- Sabes fazer este bolo, Kátia ?
- Isto não é um bolo, é um pudim. - intrometeu - se Alzira - Kátia não tem a menor idéia de como fazer um pudim. Sempre estudou muito, agora trabalha demais e não tem tempo para aprender com estas banalidades.
- Uma mulher deve saber cozinhar - insistiu Abraham.
- Eu não criei minha filha para ser dona de casa. Ela é independente, tem uma profissão, pode pagar quem cozinhe e limpe para ela.
Kátia mudou o rumo da conversa:
- Meu bem, estou lendo um artigo em inglês, muito interessante...
Enquanto Alzira retirava a mesa, os dois namorados sentaram - se na sala de visitas e Rolando, não encontrando lugar para ficar, refugiou - se na cozinha, desabafando:
- Que coisa irritante! Eles fazem questão de nos manter à parte da conversa deles. Só medicina o tempo todo. De repente, voltar para casa à noite tornou - se horrível.
- Pelo menos ela está feliz. Desmancha - se em sorrisos e gentilezas para cima dele, não vês?
Nisto, Kátia chamou :
- Papai! Mamãe! Abraham trouxe doces!
- Doces ? Pois então era este o conteúdo do pacote misterioso? - brincou Rolando.
- Com que então, trouxeste doces. Estão muito lindos, sabes? - e Alzira inclinou - se para pegar um.
- Não, senhora.- cortou Abraham, embrulhando rapidamente a bandeja -Abri o pacote para o senhor Rolando experimentar, pois a senhora é diabética, não deve comer doces, e Kátia está de regime. Vou levá - los para minha mãe.
Kátia suportou estoicamente os olhares dos consternados pais.
- Bem, nós entendemos mal - Alzira contornou a situação - Kátia disse que trouxestes doces, eu pensei que os trouxesses para nós, mas, enfim, como são para sua mãe... Mas, diga, aonde foi que compraste doces tão bonitos? Rolando, estão gostosos ?
Kátia fez - se escarlate com a resposta do namorado :
- Ganhei - os de uma paciente.
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