28 de mai. de 2010

crônica - Comer por prazer

Tudo para ela era ma-ra-vi-lho-so!!! Só conhecia homens incríveis com quem tinha relacionamentos fan-tás-ti-cos!!!
Descobri o segredo quando viajamos juntas. Ela, indiferente aos transtornos do translado e ao fato de perder o almoço, acomodou-se no hotel simples como se estivesse em um cinco estrelas e declarou Florianópolis sensacional antes mesmo do primeiro passeio.
Íamos meio a turismo, meio a estudo. Nosso curso começava ao meio-dia e meia. Estávamos em uma praia isolada, em um hotel que não servia refeições. Restou-nos a opção de comer em um ‘por kilo’ ali perto. Ela comentou que não conhecia coisa melhor que comidinha caseira, enquanto eu empurrava para o lado as porções salgadas em excesso, defendendo-me com saladas e frutas.
Foi ao jantar que comecei a compreender. O grupo todo foi a um restaurante turístico saborear os frutos do mar. Ela mastigou distraída a casquinha de siri e engoliu os camarões como se fossem pílulas, esclarecendo:
_Comida é apenas nutrição. Não como por prazer.
Eu havia recentemente concluído um curso de estórias terapêuticas, onde toda sorte de ensinamentos eróticos e conflitos conjugais são elaborados através de relatos paralelos sobre o hábito de comer. Existe uma forte relação simbólica entre comida e sexo. E enquanto o paciente se pergunta por quê o terapeuta fica divagando sobre gastronomia, resolve sua sexualidade.
Como estivéssemos a duas horas do centro, passávamos as manhãs na praia em frente ao hotel. Ela dizia a todos que a ilha de Florianópolis é maravilhosa só por ter ouvido falar das dunas, dos sambaquis, dos golfinhos e da figueira secular.
Minha teoria confirmou-se quando conheci o marido dela, um sujeito que retira as batatas fritas com as mãos da travessa comum e soca-as goela abaixo enquanto fala. Ele reclama de tudo o tempo todo, não gosta de dançar e passa os fins de semana em casa por ser mais econômico.
Hoje, quando ela critica meus pares amorosos, eu sorrio. Meus namorados levam-me para dançar à luz de velas saboreando um bom vinho. Meus relacionamentos não são ma-ra-vi-lho-sos, mas como por prazer. E faço questão de um torresminho no meu feijão!

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