Kátia passara a manhã arrumando os livros. Como acontecia sempre que resolvia mexer na estante, redescobria poemas, hai - kais e pensamentos rabiscados em folhinhas soltas. Encontrou por acaso uma poesia que escrevera ao romper com Jaime:
“Eu
Você
Nós
Você e eu
Você
Só você
Eu e somente eu.”
Ela gostara tanto de Jaime que chegara a pensar que nunca mais amaria outro homem - e no entanto, a intensidade de sua paixão por Jaime não atingia a metade do que sentia por Abraham, este sim, um sentimento profundo, intenso.
Amassou a poesia, a conjeturar na demora de Abraham. A folhinha marcava 29 de dezembro e ela não o vira depois do Natal.
- Como vai ser o Natal ? - perguntara Alzira.
- Como sempre - respondera Kátia.
- E o Abraham?
- Ele é judeu, não comemora o Natal.
- E ele não vem jantar, por ser Natal? - Alzira alteara a voz, irritada com o tom da filha. À noite, dirigira - se ao pretenso genro:
- Escute, Abraham, esta segunda é véspera de Natal, tu sabes, nós todos os anos fazemos uma pequena ceia, só nós tres, só nossa família, nem a minha nem a do Rolando vem, pois eles moram muito longe, mas nós comemoramos os tres e neste dia nós não jantamos, fazemos uma ceia bem mais tarde, lá pelas onze, com peru, castanhas, essas coisas da época, eu sei que tu não comemoras, mas querendo vir fazer companhia a nós, já sabes, nessa noite ceamos tarde. Vens?
Abraham compareceu. Kátia fizera seu pudim Getúlio Vargas de todos os natais e comprara a tradicional torta de nozes. À meia - noite, Kátia arrastara o namorado para a árvore e tirara de lá dois discos, seu presente de Natal para ele, discos de Brahms e Mozart.
- Gostas ? - perguntou ansiosamente.
Abraham beijara - a rapidamente e largara os discos junto a sua carteira. Os pais de Kátia haviam permanecido discretamente afastados.
Um toque de campainha despertou Kátia de suas lembranças.
- É o teu Abraham - anunciou Alzira secamente.
Kátia rasgou a poesia em pedacinhos e jogou - os apressadamente no lixo, a caminho da porta.
- Oi, benzinho, que saudades! -e após o beijo costumeiro : Você perdeu meu endereço ? Não deu mais sinal de vida, não esteve doente, por acaso ?
- Não - o outro sacudiu a cabeça.
- Entra.
- Não. Só vim avisar...
- Entra, Abraham, boa tarde! - Alzira surgiu excessivamente amável - Como tens passado ? Bem ? Entre, fique à vontade - e sem esperar resposta -Kátia, estou arrumando teus vestidos, quer que eu desmanche a barra do rosa ?
- Não , o rosa é para tirar os bolsos, o azul é que é para encurtar.
- É isso mesmo, agora me lembro. com licença, Abraham.
O médico entrara e deixara - se ficar parado no meio da sala, mãos às costas. Súbito, perguntou :
- Tudo bem?
- Ótimo. E você ?
- Também .
- Ouviu os discos ?
- Não tive tempo.
- Você não está de férias?
- Sim, mas estive estudando.
- Ah ... - Kátia tentava convencer - se de que não estava decepcionada. ele não ouvira os discos nem a procurara... - sabe, a Solange nos convidou para passarmos o Reveillon no Guarujá. Vamos ? Eu nunca passei o Reveillon fora de casa, deve ser tão divertido !
Ele demorou a responder.
- Vou viajar hoje à tarde. Só volto dia 3.
- Viajar ? Para onde ?
- Ubatuba.
- Ah, vais passar os feriados com teus pais na praia?
- Meus pais não estarão lá.
- Mas então...
- Olhe, Kátia, tenho de pagar os impostos atrasados antes de fim do ano.
Kátia lembrou - se : “um homem não gosta de ser pressionado”, “uma mulher não deve implorar”, “mantenha a classe”, “uma mulher não deve imiscuir - se na vida particular de um homem”, “seja meiga e submissa”.
- Terei saudades - disse, simplesmente.
Abraham tentou sorrir :
- É só até o ano que vem. Até.
- Até.
Alzira voltou ao ouvir a filha bater a porta, pálida, olhos brilhantes.
- Abraham já se foi ? Brigaram ?
- Não, mãe. - respondeu a filha, a olhar pela janela.
- Bem, ele disse porque não apareceu todos esses dias ?
- Não, mãe - a voz macia de Kátia, seu olhar perdido na paisagem, Alzira os conhecia bem.
- O que ele achou dos discos ?
- Ele nem os ouviu.
- O que ? Não ouviu? Mas como ? Escute, Kátia, que pouco caso, tu não achas ? Se ele tivesse ao menos piedade de ti, teria mentido...
A moça retirara da estante outra pilha e livros e os espanava com excessivo zelo.
- Preciso pensar, - continuou Alzira, que nunca desistia antes de arrancar toda a verdade da filha - no que farei para o “dileto amado” no Reveillon. Que achas, Kátia, de um pernil com abacaxi e ameixas ? E uma torta de ...
- Podes fazer o xexelento cardápio de todos os anos.
- Kátia, o Abraham não vem ?
- Não.
- Mas por que ?
- Porque ele tem de ir a Ubatuba pagar uns impostos. - a moça sentia as faces queimarem, lutando para fingir um ar inocente e crédulo. Inútil.
- Pagar impostos ? - e o timbre agudo da voz de Alzira tornou - se estridente e desagradável - Francamente, Kátia! E tu aceitas isto ? E finges - te de inocente! Tu não tens vergonha, permitir que um homem te trate com este descaso, com essa desconsideração ! O que ele te disse, Kátia, não foi uma simples mentira, foi um desacato! No Reveillon! Francamente!
- Enfim, o que há ? - ouviu - se a voz de Rolando.
- Oh, - Kátia tentou diblar a conversa - Abraham não vem jantar no Ano Novo e mamãe dramatiza.
- Conta direito, menina! Sabes, Rolando, o “amado” veio dizer que vai para Ubatuba pagar não sei que impostos e só volta dia 3. Nem ouviu os discos dela. E nem explicou porque não apareceu depois do Natal. E nem ao menos quis sentar, ficou em pé louco para ir embora.
- Ele não veio porque estava estudando - Kátia tentou pela última vez defender o namorado.
Alzira, indignada, tal qual um sapo de papo inflado, mal respirava. Rolando, um riso escarninho nos lábios, pos -se a pensar em voz alta:
- Daqui a Ubatuba são tres horas de viagem, vai - se e volta - se no mesmo dia. Aquilo, os pais dele, que ele não quer que tu conheças...
- Os pais dele não estarão lá... - tarde demais, ela deu - se conta de ter falado o que não devia.
- Ah, sim, é claro.... - Rolando ria francamente _ Sabes que dia é hoje, minha filhinha? Sábado. Prefeitura nenhuma recebe impostos hoje, todos os balanços do ano foram fechados ontem. Mesmo que assim não fosse, o teu Abraham chegaria em Ubatuba somente à noite, e domingo e dia 31 e dia 1° todos os órgãos públicos estarão fechados. Sem contar que, se ele pagasse mesmo alguma dívida, nada o impediria de voltar amanhã. Se os pais dele não estarão lá, tu achas que ele estará só ?
- Ele não precisaria mentir, se fosse passar o Reveillon com os pais, Rolando e eu compreenderíamos - e Alzira acrescentou , sarcasticamente - Porém, como ele se enjoou de lambiscar o sorvetinho, vai é saborear os manjares de alguma amante muito bem sortida!
- Chega - disse Kátia.
- Tu és uma boba! E concorda, e aceita, aí toda cheia de nhe - nhe - nhem... - continuou a mãe - Tu não tens vergonha! Eu não te criei para isso!
- Chega - repetiu Kátia.
- Tu não precisas passar por essa humilhação, minha filha. Este homem te desconsidera e tu o desculpas, não te faças de boba, ele mente e tu sabes que ele mente, e a única explicação possível é que ele tem uma amante, que prefere a companhia dela à tua no Reveillon.
- Cala a boca, pai.
- Ele prefere passar o Ano Novo com a outra e tu, idiota, te fazes de sonsa. Eu tenho pena de ti, minha filha, que te sujeitas, sem necessidade, a uma tal humilhação.
- Pare.
- Não, minha filha, eu não paro, tu és uma tola e o teu namorado é um grosso, um mentiroso e um mau mentiroso, que quer se aproveitar de nós, que vem encher o bucho em nossa mesa, comer e beber às nossas custas, mas que não tem a menor intenção de casar contigo, senão ele não faria esta injúria de passar o Reveillon com a amante.
- Pare.
- O teu Abraham tem uma amante!
Os estilhaços de cristal dispersaram - se em todas as direções, com estrépito. Kátia agarrara a compoteira e a atirara no pai. Alzira gritara, assustada, e Rolando esquivara - se do golpe com presteza.
Kátia tremia, percebendo tardiamente a gravidade de seu ato, o olhar fixo em Rolando, que riu gostosamente uma última vez antes de sair. Somente então Alzira recuperou a voz :
- O meu cristal de quatro mil reais!
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