(publicada no jornal Informativo Pró-Arte, Bebedouro/SP)
Suzana não se atreveria a chorar, de tal forma o pavor de uma nova reprimenda a tolhia. Repetia incessantemente para si mesma ( esse o seu mais recente método de consolo ) que a noite SEMPRE chegava,e, com ela, algumas horas de paz.
A menina escondera sob o colchão uma vela e uma caixa de fósforos, por isso mal ousava olhar para o quarto, com medo de trair - se. A horrível resolução que tomara gelava- lhe as entranhas de medo, no entanto encerrava alguma esperança, qualquer coisa preferível ao extremo do suicídio.
O serão transcorria monótono, a mãe silenciosa a um canto, a televisão enfadonha, Suzana encolhida em sua cadeira de balanço sem balançar _ proibido riscar o chão recém encerado.
Finalmente Suzana pode ir deitar - se. A mãe despediu - se com um beijo mecânico e um olhar rancoroso ( pois não quebrara Suzana seu cristal de estimação ?)
No escuro, a menina permanecia sentada a fim de não adormecer, pequenina, insignificante, infeliz. A emoção que a assaltava vinha de tão longe que quase não se lembrava de haver sentido outras em sua curta vida.
Lembrava - se perfeitamente de entrar no banheiro um dia, pegar uma gilete e aproximá - la do pulso. “ Mas um dia eu fico grande e vou embora.”_ pensara, embora um dia parecesse tão longe no tempo ... Freqüentemente voltara a apanhar a gilete, soluçando, aflita, querendo
sumir. Doeria muito ? E se não tivesse forças suficientes para cortar - se ? E se desmaiasse antes e fosse socorrida a tempo ? Nem pensar ! A surra que levaria depois !
O suicídio não poderia falhar, pois as conseqüências seriam terríveis!
Suzana olhava freqüentemente pelas janelas, mas a visão de seu corpo estraçalhado na calçada a repugnava. Sentia tonturas só em olhar para baixo e imaginar os horríveis minutos de um corpo a cair no abismo. Ademais, a mãe vigiava - a continuamente e por duas vezes a tirara do parapeito da janela ( sem desconfiar das verdadeiras intenções da filha ?), pois Suzana não fora suficientemente rápida, aliás temia sobreviver. Havia casos em que a pessoa não morria, apenas quebrava os braços, as pernas... E se ficasse paralítica ? E as reprimendas, depois ? Os castigos, as acusações ?
Naquela semana mesma, a menina quebrara uma garrafa de groselha. O grito de “Estabanada !” feriu - lhe os ouvidos ao mesmo tempo que o estilhaço dos cacos. Suspensa no ar, Suzana gritou de susto antes mesmo de sentir as palmadas e o arengar rotineiro, rancoroso, acusador.
Suzana sentia sede, transpirava de calor,no entanto não lhe permitiria a mãe um gole de água antes de limpar toda “aquela porcaria” e ai dela se não ficasse tudo bem limpinho, senão...
Enraivecida, a garota vingava - se imaginando que a groselha no chão era sangue; o sangue da mãe que ela esfaqueara e espalhara com gosto pelo chão. Imaginava - se em meio a marginais, perdida para sempre, dedicando a vida a assassinatos os mais cruéis. O calor sufocante, o choro, os macabros pensamentos deixaram - na indisposta. Que espécie de monstro desejaria matar a mãe ? Ela, Suzana, a culpada, sentia - se horrível.
E eis que na escola, durante uma aula de religião, uma das freiras descrevera a danação eterna dos que vendiam a alma ao diabo, para obter na Terra riqueza, luxo, glória.
A cada dia mais triste, tinha Suzana a impressão de que ficar grande e poder ir embora estava longe de realizar - se.
Sofrida, reprimida, culpada, acusada, sujeita a gritos, castigos, ameaças e reprimendas, perguntava - se Suzana o que fazia Deus de todas as preces em que ela lhe suplicava o amor da mãe ? Ao menos que o diabo a libertasse do ódio. NESSA VIDA.
E assim, quando todos na casa adormeceram, Suzana levantou - se silenciosa e acendeu a vela. À luz bruxoleante, ajoelhou - se de mãos postas e rezou ao diabo. Suplicou - lhe que a protegesse, que lhe desse nesta vida amigos e afeto. Prometeu - lhe adoração,obediência e a alma.
Aguardou, trêmula, que um monstro aparecesse para exigir - lhe coisas horríveis e vergonhosas para testar sua lealdade ou talvez selar o pacto com uma assinatura em sangue.
No entanto, nada aconteceu.
Recusara o Demo o seu sacrifício ? Teria sido tudo em vão ? Lágrimas começaram a correr - lhe pelas faces e mal podia respirar, tão pesado sentia seu coração.
“ Mas, quando rezamos a Deus, Ele não nos responde pessoalmente, por que então o Diabo o faria ?”_ pensou ela_ “ Não é necessário que ele apareça, não. Basta rezar. Ele ouviu.”
Fechou os olhos com força, encontrando algum alívio em pensar :
“ Graças a Deus, Satã ouviu. ”
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