28 de mai. de 2010

conto - Uma questão de auto-controle

- Este menino é igualzinho ao pai dele ! - desabafou minha mãe, a suspirar, sem saber que eu a ouvia.
Fiquei pregado ao solo como se um raio me houvesse cauterizado.
- Verdade, mano, que eu tenho o gênio do pai ?
- Sem tirar nem por - respondeu, sem hesitar, meu irmão.
Nesta época eu tinha quinze anos de idade. Órfão de pai desde os dez, eu me lembrava perfeitamente do inferno que era a nossa vida com ele.
Bêbedo inveterado, chegava em casa distribuindo porrada. Surras, quebra - quebra, palavrões, um desassossego.
Quando ele morreu, a casa ficou silenciosa, arrumada, a despensa farta e a cozinha sempre repleta de boa comida.
As cenas, as brigas, a gritaria, porém, continuaram, e pensando bem, bem, sobre isso, concordei com minha mãe e meu irmão ¬ - meu gênio terrível, meu temperamento colérico e explosivo é que provocavam o tumulto.
Tornar - me igual a meu pai ? Jamais !
Resolvi controlar minha raiva.
Tomei a firme resolução de tornar - me um homem educado.
Para começar, o velho truque de contar até dez antes de abrir a boca.
Li em algum lugar que relaxar os músculos ajudava. É impossível socar a mesa com a mão espalmada. É difícil gritar ao respirar devagar e profundamente.
“ Fale baixo - ordenava a mim mesmo, antes de explodir - e avise que está nervoso. ”
- Estou começando a perder a paciência - eu rosnava entre dentes, mas não adiantava muito.
Com não adiantava, eu quero dizer que as pessoas continuavam a provocar -me. Aquela velha idiota controlava meus horários, vincava minhas calças de brim e insistia em tratar - me como um nenezinho : leve o guarda - chuva, está frio, vista o casaco, volte antes das nove ...
Para começar, aquela velha idiota, em pensamento, devia voltar a ser a minha mãe.
Para prosseguir,eu não precisava obedecer, bastava escutar quieto.
- Leve o guarda - chuva, vai chover.
Eu ficava quieto e saía, sem o guarda - chuva, embora fervendo de ódio por dentro. O que aquela peste tinha de encher o meu saco ?
- Eu disse para vestir o casaco.
O primeiro impulso era gritar : “ Não amola ! Não se meta com a minha vida ! ”
Respire fundo, relaxe as mãos. Fale baixo e devagar com sua mãe. Seja educado.
- Eu escutei, mãe. Estou bem sem casaco. Não sinto frio.
Como foi difícil controlar o meu gênio. Semanas, meses, anos até a aparente calma exterior transformar - se em calma interior.
Valeu a pena.
Eu detestaria causar sofrimento às pessoas a quem mais amo, como fez meu pai.
Quero ser o oposto dele.
Não bebo, não fumo, trabalho desde os dezesseis anos de idade, estudo, classifiquei - me bem no vestibular e estou entre os melhores alunos de minha turma.
- Coma verduras, meu filho.
Descobri ser possível conversar racionalmente com minha mãe.
- Eu gosto de brócolos. Você não poderia fazer brócolos para mim ? Alface não me inspira nem um pouco.
- Claro, meu filho.
E ao invés de brigarmos por causa da alface, ela preparava minhas verduras preferidas.
- Deixe minhas calças sem vinco. É moda.
Ao invés de esbravejar inutilmente, bater portas e jogar as calças no chão, eu levava meus amigos para casa :
- Olhe as calças do Joel, mãe.
- É a moda, dona Marta.
- É mesmo ?
Aos poucos, começamos a conviver pacificamente, eu, ela e o mano.
- Que encanto de filho !
- Que garoto educado !
- Quem diria que este menino ia criar juízo, tão diferente do pai.
- Que paciência tem este rapaz !
- Tão calmo, este moço !
Assim, graças a Deus, acabaram - se para sempre os gritos, as cenas desagradáveis, os palavrões. Substituídos por gestos de afeição, sorrisos e diálogos tranqüilos.
Com força de vontade, por anos a fio eu me empenhara em dominar meus instintos agressivos. Sucesso total.
Ontem, mamãe arrumava o armário da cozinha. Passei por ela e peguei um dos espetos para churrasco, de metal longo e afiado.
Minhas mãos apertaram firme e acertaram - lhe profunda e certeiramente o coração.

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