30 de mai. de 2010

conto - O escritor e o monstro

Era uma vez um homem tão sensível, tão meigo e de coração tão puro que só podia ser mesmo o que era : um escritor de histórias infantis.Ele vivia em um mundo mágico e encantado cheio de nuvens rosas, animais que falam e monstrinhos, que, encontrando o Amor, tornavam - se bonzinhos.
Ele seria muito feliz se não fosse por um detalhe : a esposa, que não cessava de reclamar o dinheiro do aluguel, do açougue, do colégio dos meninoss... até que, por insistência dela, ele empregou - se em uma repartição pública.
Nunca, porém, ele deixou de escrever. À noite, trancava - se no quarto e deixava rolar a esfera de tungstênio, para deleite dos filhos e de quantos quisessem ouvir suas histórias.
Histórias tão boas, que um amigo levou - as a uma editora, que comprou - lhe não uma, mas todas, e encomendou mais. Um grupo de teatro adaptou suas histórias para o palco. Um programa infantil de TV contratou - o como roteirista. E ra a consagração em vida. E a oportunidade de trocar o escritório enfadonho pelo seu mundo mágico e encantado...
A esposa recomeçou com as ladainhas _ precisavam ter casa própria, um carro, colocar os meninos em um colégio melhor e ela sempre sonhara em conhecer a Europa.
Nosso pobre escritor começou a ter estranhos pesadelos, em que seus heróis bonzinhos voltavam a ser monstrinhos com idéias assassinas.
O psicanalista que ele procurou quis interná - lo imediatamente, mas ele recusou,querendo apenas comprimidos para dormir.
Ele tentou sózinho a catarse, transformando os pesadelos em contos curtos de terror, mas o editor não os aprovou _ estavam fora de moda, Pöe já esgotara o gênero e ele nem ao menos tinha a originalidade de um Kafka.
Seus livros vendiam bem, o programa infantil foi premiado, suas peças viajavam país afora, trocara de carro e podia finalmente financiar as férias da família na Europa.
Por isso ninguém entendeu por que, certa madrugada, ele esfaqueou a mulher e os filhos e enforcou - se no lustre.


Publicado 1999 no livro:
CONTOS DE TERROR
(porque possíveis...)

Não adianta trancar as portas e as janelas. O inimigo já está dentro de casa. Neste momento mesmo, pode estar à espreita....

“A desgraça é variada. O infotúnio sobre a terra é multiforme.” – Edgar Allan Pöe.

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