Paulinho nunca levou nada a sério, mas depois que virou psiquiatra tornou-se um caso de polícia.
Em uma de suas primeiras consultas, saiu do plantão, tomou banho como de costume, no hospital, trocando apenas a cueca e conservando o mesmo traje branco. Cambaleou de sono até o consultório, onde, de costas para a mocinha no divã, como convém a um freudiano ortodoxo, percebeu um inchaço acima do tornozelo direito. Apalpou, notou algo não identificado dentro das calças e, ato contínuo, deu um chute no ar para livrar-se do incômodo objeto. Ora, tratava-se da cueca suja do dia anterior, que voou certeira sobre o rosto da moça:
‘Doutor, o senhor jogou uma cueca em mim!’
‘Eu, não.’
‘Quem foi, então?’
‘Minha secretária.’
Em menino, Paulinho fora um mentiroso compulsivo, nunca assumindo a autoria de suas travessuras. Agora, homem adulto, a portas fechadas com a paciente, a negativa soou estranha. Nem por isso justificava-se o terror com que a moça atirou-se porta afora. A secretária esclareceu o pânico da cliente:
‘Doutor, tome jeito! Sua braguilha está aberta.’
Isto eu teria perdoado em Paulinho, relevando sua pouca experiência e imaturidade, se, dias mais tarde, ele não me contasse um outro caso.
Um sujeito ‘surtou’ em pleno consultório, convicto de ser Napoleão Bonaparte. Meio que por brincadeira, meio que por tentativa de confrontar o paciente com a realidade, vai o Paulinho à janela e comenta:
‘ Imperador, aquele é o seu cavalo?’
Debruçando-se sobre o peitoril, o homem grita, saca de uma espada imaginária e decide:
‘Roubaram o meu cavalo! Ao ataque!’ – desembestando escadaria abaixo.
‘E como está hoje o tal paciente?’ – pergunto, após parar de rir.
‘Sei lá. Nunca mais tive notícias dele.’
‘Paulinho, você não procurou por ele?’
E ouço, atônita, a resposta:
‘Pra quê?’
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