Prefácio do livro de contos: Um dedo de Prosa.
Arte não é comércio. É como respirar, um ato fisiológico. Ninguém faz arte porque quer, faz arte porque necessita. É comunicar-se ou enlouquecer.
Começamos a escrever, geralmente, na escola, recebendo temas para redação, como ‘minhas férias’, ‘meu melhor amigo’ etc. Nessa época usamos mais o raciocínio do que a emoção, procurando por frases de efeito que já sabemos que serão apreciadas pelos professores. Em minha época de criança estavam em moda expressões como ‘o canto mavioso dos pássaros’ e ‘flores multicoloridas’. Somos influenciados pelo estilo de nossos autores preferidos – no meu caso, Monteiro Lobato.
Hoje em dia aprecio as técnicas de Edgar Allan Poe e Fernando Sabino.
Aos poucos cada pessoa desenvolve um estilo próprio de escrever, uma maneira peculiar de perceber idéias promissoras. (chamamos a isto inspiração)
Do meu ponto de vista, inspiração é qualquer estímulo à atividade criativa.
Eu percebia que emoções fortes transformam-se em devaneios, imagens coloridas e vivas que ficavam ‘querendo sair’, agitando-se em meu cérebro. Esta inquietação inicial adquiria um significado, dava origem a uma gestação mental , e só se acalmava quando a idéia vinha à luz. Este é o meu processo de criação: a emoção gera uma perturbação psíquica que dá origem a idéias desorganizadas que ao se organizarem criam a obra.
Começo a escrever sem censuras, deixo as idéias fluírem espontaneamente para o papel do jeito que vierem, por mais sem sentido que pareçam.
Na adolescência eu escrevia histórias malucas como sonhos. Nessas primeiras histórias, vampiros, sereias, discos voadores e fantasmas misturavam-se com pessoas reais e faziam rir minhas colegas de escola. Através destes primeiros textos, os tumultuados e confusos sentimentos adolescentes iam embora e eu retornava ao equilíbrio. Eu havia descoberto a ‘catarse’ – a purificação, a sensação de alma lavada que sentimos quando extravasamos nossos sentimentos de forma simbólica.
Toda catarse é terapia.
A arte, em todas as suas manifestações, é uma forma poderosa de catarse.
O aspecto terapêutico do ato de escrever, a princípio não é muito claro porque tendemos a pensar que quando usamos as palavras utilizamos a razão, quando, na realidade, a imaginação do escritor está muito mais voltada ao emocional. A ficção, seja prosa ou poesia, é mais emoção que razão.
Com o passar dos anos, o tempo de sonhar, devanear e escrever, que a adolescência ‘sobrava’, foi diminuindo, mas o fluxo criador aumentava, e fui-me tornando sucinta, aprendendo a ‘enxugar’ os textos, a retirar o supérfluo, a garimpar o essencial do tema. A idéia vinha, eu anotava em qualquer papel à mão e deixava para desenvolver o tema mais tarde, quando encontrasse tempo livre. No decorrer do dia o assunto retornava com freqüência a minha mente, de relance; ia associando idéias, fazendo comparações, encontrando outros pontos de vista. Quando eu finalmente sentava-me para escrever descobria que o texto estava pronto em minha mente, inteiro, do começo ao fim,sem hesitações e praticamente sem necessitar retoques. Desta forma fui desenvolvendo o que chamo técnica do inconsciente.
Um acontecimento chama-me a atenção e penso ‘isto dá um conto’. Envio a idéia ao inconsciente e não penso mais nela, simplesmente aguardo; quando o texto está pronto, ele aparece por inteiro, geralmente durante a madrugada.
Há duas maneiras pelas quais as idéias me acordam à noite: texto pronto ou sonho.
No caso do texto pronto, ouço uma voz interior lendo para mim; repito três ou quatro vezes para memorizar e então levanto, acendo a luz e escrevo. É preciso ter o cuidado de repetir mentalmente o texto antes de acender a luz para que a idéia não se perca, porque a passagem do estado de relaxamento (estado alfa) para o estado de vigília (estado beta) é muito delicada; se a passagem for sutil há lembrança, já a passagem brusca provoca amnésia, perde-se a percepção dos processos interiores do estado crepuscular (a fronteira entre o adormecer e o despertar).
Os sonhos são interessantes elaborações de conflitos internos que aparecem como histórias simbólicas prontas de grande impacto emocional. São exemplos deste tipo de criação meus contos Pesadelo e No templo de Esculápio. Também a peça teatral Os deuses despencaram do Olimpo foi inteiramente sonhada.
Certa vez li o texto Pesadelo a um grupo de amigos escritores e cada um deles deu para a história uma interpretação completamente diferente. Eu o sonhei aos doze anos de idade e só aos trinta e cinco encontrei a chave simbólica do sonho, que se refere à passagem da vida de menina para a de mulher; ‘não há volta’ e a elemento para decifrar este símbolo pessoal são as letras escritas em vermelho – o sangue da menarca.
O símbolo tem esta plasticidade, esta particularidade de prestar-se a várias interpretações em vários níveis de complexidade, de acordo com o estado perceptivo de cada um.
O inconsciente representa no símbolo o que é mais importante naquele momento e o consciente capta somente o que está a seu alcance administrar, por isso as histórias simbólicas, como o são os contos de fadas, nos encantam e são tão úteis na formação do psiquismo infantil.
Quando escrevo sobre o cotidiano utilizo uma técnica um pouco diferente, meio consciente e meio automática. Escolho o motivo quando me surpreendo com o aspecto absurdo ou diferente da vida e trabalho este aspecto absurdo através do humor – desta forma descarrego as frustrações existenciais.
Procuro usar a técnica do impacto, apresentando o trivial fora de seu contexto (um de meus personagens pergunta se as girafas não são bichos de faz-de-conta); trabalho as idéias de forma aparentemente lógica de modo que a conclusão do raciocínio, no entanto, leve a uma absurdo; uso e abuso das ambigüidades e do recurso da repetição para caracterizar a intenção e o comportamento do personagem, até chegar ao final surpreendente.
O final surpreendente é uma característica do conto moderno, que consiste em conduzir o leitor a uma conclusão completamente diferente do que o fluxo lógico da história sugere e leva-lo assim a repensar a história sob uma nova perspectiva.
Em resumo, toda arte é, para o artista, uma forma de libertação emocional, sendo a criação uma forma elaborada e complexa de transformar sofrimento em arte, uma forma de contato com a realidade interior.
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