Admirei o por do sol pela última vez e já me virava para entrar em casa quando fui detido pelo carteiro:
- Assine aqui, por favor. Obrigado. Esta era a última entrega de hoje.
Exibindo seu sorriso nada profissional, irradiando felicidade, lá se foi ele a pedalar rumo ao fim de semana.
Há muito eu deixara de admirar o impávido carteiro, que debaixo de sol ou chuva, enfrentando as intempéries, leva humildemente “a carta para Garcia” . Só com a cesta básica que eles ganham eu me poria a sorrir como um idiota, sem mencionar o salário, pelo qual eu também me exporia sem titubear a ciclones, terremotos e tsumanis.
Eu poderia simplesmente ignorar a correspondência e ir logo engolindo os barbitúricos. Para todos os efeitos, eu viajara e só voltaria na 2a feira. Ninguém me procuraria. Mas a curiosidade em mim é mais que um mau hábito, é um vício. Olhei o remetente desconhecido e abri o embrulho.
Deparei - me com um livro e uma carta. Esta pouco esclarecia: “A pedido de sua amiga Zulmira, envio - lhe este exemplar. Saudações etc”
A Cura para os Traumas Emocionais. Comecei a folhear o livro, distraído, a lembrar - me da moça que eu conhecera em Campinas, com quem dividira um apartamento por dez dias durante o vestibular e com quem trocava anualmente cartões de Natal.
Nunca desconfiaria que ela fosse crente. O tal livro era uma xaropada religiosa só, embora contra a vontade, começasse a prender - me a atenção. Havia capítulos inteiros que pareciam haver sido escritos especificamente para mim.
O livrinho destrancou meu peito e a tristeza fluiu em uma enxurrada de lágrimas.
Lá estava eu, marmanjo barbudo e desempregado, a soluçar como um bebê por causa de umas babaquices carolas: “Perdoe”; “Aceite a graça divina”; “Você é especial, Deus o ama”. Pus - me a rir.
E liguei para a Zulmira.
- Zu, é o Otávio.
- Você está bem?
- Estou ótimo - menti - Que idéia foi esta de mandar - me um livro?
- Nem sei como explicar. Sabe que estou com rubéola? Imagine, rubéola na minha idade! Não posso sair de casa, por isso telefonei a um amigo para mandar o livro a você o quanto antes.
- Por que a pressa?
- Bem, eu estava aqui delirando, na maior febre, quando você me apareceu em sonho e insistiu em que eu lhe enviasse este livro, parecia tão real que fiquei impressionada, acordei com uma pressa, um sentimento de urgência, e fui logo ligando para o livreiro com medo de esquecer o nome do livro. Sei que foi uma tolice ...
- Zu, eu te amo!
Hoje eu acredito em sonho, em anjo, em tudo quanto é mistério e - milagre dos milagres - acredito até em mim!
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