28 de mai. de 2010

conto - Alguém muito especial

No início da primavera, Berenice decretou aberta a temporada de caça aos sapos.
Começou a caminhar sozinha na praia duas vezes ao dia, matriculou - se em uma academia de ginástica, começou a freqüentar a piscina e a jogar tênis, visitava as locadoras de vídeo todas as noites e tomava religiosamente um suco de frutas nos happy - hours da moda.
Tudo parte de seu plano para arranjar marido.
Em desespero de causa, inscreveu - se em quantas agências de casamento encontrou. Recebeu dezenas de cartas, fotos e postais. Alguns estranhos, como estes :
“Quero uma mulher autoritária, mandona, loira e que goste de trair.”
“Você é boa no uso de chicote ? Pois só me sinto sexualmente excitado quando apanho.”
A única carta que realmente a interessou foi a do médico. Um pesquisador na área de anemia falciforme. Um espírito cultivado, amante da filosofia e da música clássica, admirador de ópera, versado em literatura, gourmet, elegante, lindo, um charme, como ela pode verificar pessoalmente ao arriscar - se a um fim de semana no Caribe para conhecê - lo.( ele era inglês) Não deu certo por um pequeníssimo detalhe: ele morava no Iraque. “Se você não faz questão de viver em um país onde as mulheres são enclausuradas, não trabalham, não saem às ruas sem véu e, é claro, o país está em guerra, se você não se incomodar com os bombardeios...” A ex - mulher o acompanhara ao Iraque e fugira com os filhos após dois meses.
Berenice já percebera que existem dois tipos de sapos : há aqueles que você beija e então se transforma em uma sapinha. O médico pertencia a esse tipo.
Berenice procurava o ideal : o sapo que se transforma em príncipe.
As semanas foram - se passando e ela não passava noite sem programa - jantares, boates, pique - niques, shows, teatros, exposições, loiros, ruivos, morenos, olhos verdes, azuis e castanhos.
Um guitarrista compôs um jingle para ela. Recebeu flores acompanhadas de poemas. Acrósticos.
Mas nenhum tocava seu coração.
Ela foi descartando os homens como quem despetala uma flor : chato, feio, faz regime macrobiótico, este toca saxofone, aquele é fã de faroeste, este é vidrado em rock, este fuma, este bebe demais, aquele não serve, este também não serve...
“Enfim, o problema é meu !” - concluiu ela.
E , infeliz, sentou - se em frente à TV, pela primeira vez em meses, descalça, sem maquiagem, a comer pipocas.
Então a campainha tocou.
Era Leo, o vizinho, seu amigo de infância.
- Há semanas tento devolver - lhe o livro, mas você nunca está em casa...
- É mesmo, minha vida andou uma roda viva.
- Andou ?
- É, agora tudo voltou ao de sempre. Noites em frente à TV, trabalho, casa e mais nada.
- O que há de errado com trabalho, casa e TV ? Até parece que você está deprimida!
Ela suspirou.
- É, Leo, os anos vão passando e eu queria ter filhos, família, estas bobagens que mulher curte.
- Tudo tem seu tempo.
- É.
- Você vê, eu vou casar.
- Você ? Eu nem sabia que você estava namorando!
- Pois é.
- Conte, Leo.
- Foi por sua causa.
- Como assim ?
- Nós sempre jogamos cartas nas noites de sexta - feira.
- É verdade.
Não apenas jogavam cartas, como caminhavam na praia aos domingos e jantavam juntos com freqüência. Leo era ma companhia agradável, divertido, mas não passava de um amigo e ela dera - lhe um “chega para lá” quando partira em busca de um marido.
E agora percebia o quanto ele era bonito, notava os traços clássicos de sua beleza. O coração dela disparava, seu rosto queimava e suas mãos faziam - se de repente tão frias, frias de medo, frias de saudades. Saudades ?
- De repente você não estava mais aí para fazer - me companhia, eu me senti muito sozinho.
- Sentiu a minha falta ?
- Claro .
- E por que não me chamou ?
- Eu chamei, você nunca estava em casa..
Ela lera distraidamente os recados dele sob a porta e os picotara, atirando - os ao lixo, afinal, era apenas o Leo perguntando por ela.
- Bem, então eu saí por aí, procurando os colegas e conheci a irmã de um deles.
- É ?
- Uma moça muito boazinha. Parecida com você, sabe ? Do tipo que senta descalça na sala para comer pipocas e gosta de jogar cartas com os amigos nas noites de sexta - feira.
Por que aquelas lágrimas idiotas querendo aflorar ? E aquele buraco no peito ?
- Leo, você gostava de mim?
Silêncio.
- Leo ?
- Gostava, sim, Berenice. Mas você nunca me deu uma chance.
Sim, era apenas o Leo, o amigo certo de todas as horas, o que estava sempre lá.
O que estivera sempre lá.
“É como um conto de fadas - pensou Berenice - A heroína sai pelo mundo a buscar um tesouro que está escondido bem em frente à sua porta.”
Ela disse com ousadia :
- Mas não é tarde demais para nós dois, não é , Leo ?
Ele olhou - a, surpreso, e afastou - a delicadamente :
-É estranho que você diga isso, sabe, Berenice, porque... durante anos eu olhei para você embevecido, você era a princesa de meus sonhos e eu me sentia desajeitado, tímido, sonhando com o dia em que você me notasse.
- E aí eu o beijaria e o sapo desajeitado se transformaria no príncipe encantado !
Riram.
- Seja feliz, meu sapo. Dê - me um beijo de despedida.
Aconteceu assim. Ele foi embora e ela sentou - se em frente à TV a comer as pipocas, agora salgadas pelas lágrimas.

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