Quando ele a olhou, ela sentiu - se eletrizada. Balbuciou um cumprimento qualquer, de pernas bambas.
Sabia que ele era casado. Sabia também que a esposa sofria de uma doença incurável e estava, por assim dizer, vivendo de empréstimo. Há três anos os médicos lhe haviam dado seis meses, mas os cuidados carinhosos da família e um intenso apego à vida por parte da doente iam prolongando aquela agonia.
Na cidade pequena, o casal virara uma lenda viva.
Namorados de infância, fiéis na adolescência, casamento precoce abençoado com quatro filhos, família exemplar, todos músicos, todos alegres, cordiais, gente corajosa e positiva diante da vida.
E fora com coragem e firme convicção que enfrentaram a doença, sem esmorecer, confiantes em uma possível cura surgida a qualquer momento.
A dedicação e o carinho desse esposo de quem as más línguas não achavam rabo de saia a quem ligá - lo para denegrí - lo, valeram - lhe o respeito e a admiração de todo o povo.
Pois este homem, ela agora o conhecia. Não deixava nada a dever ao encanto de suas composições tão belas e sentimentais e a elas acrescentava sua voz magnífica. Ela comoveu - se ao ouví - lo.
Este homem ficaria viúvo em breve.
Em um insensato momento ela decidiu : ele seria seu marido. E convenceu - se de que a comoção que a possuíra fora compartilhada por ele.
Nas próximas semanas ela aproximou - se, confiante, caprichosa com sua aparência, com suas roupas, segura por compartilharem o mesmo ambiente profissional e sem receio de ser corretamente interpretada em suas intenções, ela tornou - se indispensável, eficiente colaboradora para qualquer incumbência em qualquer ocasião.
Passaram - se mais tres anos. Ela então soube de um caso semelhante, de um rapaz que sobrevivia há já trinta - trinta! - anos, graças aos cuidados extremados da família.
E foi - se de vez a paciência dela, pois esperar trinta - trinta! - anos, era o mesmo que desistir de vez. Dali a trinta anos, ela teria sessenta e ele, setenta e adeus esperanças de lar com filhos, que ela não tinha ainda nenhum.
Por isto ela iniciou um namoro mais por ter o que fazer nos finais de semana enquanto esperava para ver o que acontecia, com um rapaz de uma cidade vizinha.
Então ele enviuvou.
Ela mais que depressa desmanchou o namoro e desfez - se em gentilezas para com o consolável viúvo, que retribuiu de imediato suas atenções, pois era um homem prático e há muito vinha se preparando para o desenlace fatal.
Feliz, eufórica, ela sentia próxima a realização de suas esperanças, quando se viu às voltas com um probleminha incômodo.
Grávida. Grávida do outro ! Apesar de todas as precauções, uma camisinha furada em uma noite mais afoita de prazer e lá se iam os seus projetos naufragando !
Ela não vacilou : optou pele abortamento.
Tirou férias, viajou a pretexto de visitar os avós para escudar - se atrás do diploma de uma amiga que a acudiu nesse instante de aflição.
Voltou após um mes, abalada psiquicamente, abalada emocionalmente, mas decidida a garantir sua posição de, enfim, segunda esposa.
Voltou. Para encontrá - lo noivo de outra, vinte anos mais moça, que ele conhecera naquele mes e com quem ia casar - se, pois era um homem muito correto e responsável. Afinal, a jovem, inexperiente, ou, quem sabe, experiente demais, estava grávida.
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