“O primeiro verme que saborear meus restos mortais saberá que é sem saudade que abandono esta existência ilusória, este mundo de valores invertidos que só trazem decepções, dores e mágoas.
A meu pai, deixo meus discos clássicos.
A minha mãe, minha coleção de pagodes.
Para minha irmã, minhas bonecas e todas as roupas que ela queira herdar.
Meus livros ficam para a Biblioteca Pública e meu gato angorá para meu namorado.
Não chorem por mim, serei feliz. Deixo este mundo com a certeza de que me aguarda a Eternidade.”
Que linhas mórbidas!
Esta folha estava sobre a cama de Alzira; li-a com emoção e procurei minha filha.
- Foi com o Osvaldo para o Clube de Vôo Livre experimentar uma nova asa delta - informou a caçula.
Dirigi como louca até o alto do morro. A turma estava a rir e a tagarelar, como sempre. Assustaram-se com minha presença:
- Cadê minha filha?
- Acabou de pular. Mas como a senhora está pálida!
Em minha imaginação, Alzira rolava precipício abaixo. Ela “acabara de pular” de asa delta e agora eu a via, gaivota frágil a piruetar no azul.
- Ela quer morrer! Deixou um bilhete...- engasguei.
- Ziza? Que bobagem!
- Deixou um bilhete de despedida - insisti - Ela vai matar-se, vai soltar-se dessa asa e despencar no asfalto.
- Impossível! - Osvaldo garantiu-me que seria impossível desamarrar as correias em vôo.
Puxei de lado Aninha, a melhor amiga:
- Não me esconda nada. A verdade. Alzira está grávida? Anda metida com drogas?
- Francamente, Da Neide!
- Ela está chegando, olhe!
Alzira estava a uns três metros da areia. Voltei ao carro e guiei como pude, entre lágrimas e tremores. Encontrei-a a sorrir, acenando para o grupo lá em cima.
- Minha filha, você não vai fazer isso!
- Mamãe!... Fazer o que?
- Aquele testamento horrível.
- Que testamento?
- Aquela bobagem toda que você escreveu sobre deixar esta ‘existência ilusória’ sem saudade e...
- Ah, aquilo! Mamãe, aquilo é a minha redação de português. O que você pensou que fosse?
- Redação? De português?
- É, Da Curiosa. A professora de literatura pediu para cada um escolher uma idéia original de Machado de Assis e desenvolver do jeito que quisesse. Aí eu escolhi Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Ao primeiro verme que primeiro roeu as carnes frias do meu cadáver...”. É o trecho machadiano mais original que já li!
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