(recordações da minha infância)
Laura sentou - se na sala, a olhar a imensa árvore com suas enormes pilhas de presentes.
A pilha maior era da avó, mas havia uma pilha bem grande com o nome dela. Havia presentes da avó, dos pais, de cada um dos tios - dez ao todo, e é claro, haveria o presente de Papai Noel.
Os adultos estavam ocupados demais para darem atenção às crianças e tia Noêmia a expulsara da cozinha com um “muito faz quem não atrapalha” e dois bombons.
Como Laura não sabia escrever, desenhara a boneca que queria com todos os detalhes, inclusive o guarda - roupa cheio de vestidos e acessórios que a acompanhava, e colocara o desenho na árvore para Papai Noel. Sua mãe escrevera uma carta por ela pedindo um presente surpresa e Laurinha assinara seu nome em baixo , depois de praticar bastante em rascunhos de papel de pão.
As tias armaram uma mesa linda, com um arranjo de frutas ao centro, enfeitado com hastes de trigo, fitas e bolas. Deixaram que Laura distribuísse os guardanapos e um bombom ao lado de cada prato.
Ah, os pratos! Eram o orgulho da avó. As filhas os haviam pintado em fina porcelana, com motivos natalinos todos diferentes : pinhas, bolas, velas, bonecos de neve, anjos, árvores... todos contornados com frisos dourados e com o nome de cada pessoa também em dourado.
O prato de Laura tinha um Papai Noel, como o das demais crianças, mas nenhum prato era igual ao outro. O Papai Noel de Laura carregava às costas um saco repleto de brinquedos.
Vovó trouxe para a sala a cesta de Natal. Tirou de lá vinho, champagne, castanhas, frutas secas, latarias e um...
- O brinquedo é meu! - gritou Sara, arrebatando das mãos da avó uma boneca Emília.
- E para mim ? - perguntou ansiosamente Laura.
- O do ano que vem é seu.
Sara agarrou - se à boneca e mostrou a língua para a prima.
Mais tarde. o primo Luciano, que era alfaiate, passou para cumprimentar e trouxe para sara uma capa de veludo com gola de pele, apropriada para as noites frias. Linda. Não trouxera nada para Laura e ficou atrapalhado quando viu seus olhares ansiosos que iam dele para a capa macia.
- Quando você crescer mais um pouco, eu faço uma roupa bem bonita para você.
Quase na hora da ceia, o vizinho apareceu com Suzete, uma garota da idade de Laura, com oito irmãs e a mãe doente, todos muito, muito pobres, que fora batizada por um dos tios de Laura.
- Suzete vai passar o Natal conosco - anunciou seu padrinho - Cada uma das filhas do Farides vai passar o Natal com a madrinha porque a mãe está no hospital.
Laura cochichou para a mãe :
- Como é que vai ser, com o presentes? Não tem nada para ela.
- Tem presente para a Suzete também, explicou a mãe, o padrinho comprou uma boneca para ela.
Uma boneca ! Laura pensou em sua pilha de dez embrulhos, sentindo - se esquisita por dentro.
Pela manhã, ao acordar, Laura não saberia dizer quando adormecera. Lembrava - se de estar comendo e cantando e cambaleando de sono.
Aos pés da cama, uma caixa. Laura a desembrulhou aos gritos, encontrando um urso de pelúcia. Pos - se a procurar embaixo da cama e a mãe apareceu, perguntando :
- O que Papai Noel trouxe ?
- Não achei o presente dele ainda.
- Como não ? Você até já desembrulhou!
Laura olhou sem entender enquanto a mãe lia para ela o cartão que viera com o urso, assinado Papai Noel.
- Mas eu queria a boneca!
- Você não gostou do urso? Você o achou tão lindo, na loja.
Laura também achara lindos o trenzinho elétrico, a caixinha de música, a pianola... mas ela pedira a boneca com guarda - roupa.
- Venha ver os presentes da árvore, quem sabe não há lá uma boneca - sugeriu a mãe.
Os pais deram uma boneca para Laura, muito bonita, que chorava e falava mamãe, mas não tinha nenhuma roupinha para trocar. A menina foi desembrulhando outros pacotes : um quebra - cabeças. uma casinha de bonecas, um joguinho de panelas, um livro com gravuras coloridas, uma porção de roupas bonitas.
Ao sentar - se para o café ela viu Suzete a um canto, muito séria, dizendo que queria ir embora, segurando nos braços uma boneca que não abria e fechava os olhos nem chorava nem falava mamãe. A tia costurara alguns vestidos para a boneca, mas não eram como os vestidos de loja e Suzete não parecia contente.
- Suzete, eu deixo você brincar com meus brinquedos - ofereceu Laura.
- Nos meus ela não põe a mão - gritou Sara.
- Eu não quero nada de vocês - disse Suzete - Quero é votar para casa. Minha mãe bem diz que gente pobre não tem nada o que fazer em casa de gente rica.
Laura ia replicar que não eram ricos, mas pensou em sua pilha de presentes, na mesa lindamente enfeitada com tanta comida boa e calou - se.
Até mesmo o vestido novo de Suzete era diferente das roupas de Sara e de Laura.
Depois que Suzete partiu, Laura descobriu alfinetes espetados em todas as frutas e também nos bombons. Suzete os espetara.
- Que menina maldosa! E sem um pingo de gratidão! - horrorizou - se a avó.
Laura lembrava - se de Sara a mostrar - lhe a língua, agarrada à boneca Emília e a exibir - se na linda capa de inverno , enquanto ela, Laura, não ganhara nada e o que pedira a Papai Noel não viera.
Laura não seria capaz de vingar- se de Sara, nem de estragar as frutas, não tinha nenhuma vontade de fazer maldades, mas sentia - se decepcionada com o Natal.
Parecia - lhe que estava tudo, tudo errado.
Laura não sentia nenhuma vontade de brincar. Preferiu ficar conversando com o Menino Jesus do presépio e ele lhe disse que não tinha a menor importância ela não ter ganho o que escolhera de Papai Noel, pois sua mãe não estava doente no hospital. E ele concordou com ela : nenhuma criança pequena deveria passar o Natal entre estranhos, longe de sua própria mãe.
Cristo pode nascer e renascer todos os anos pelos séculos afora ; o nascimento de um deus não consegue livrar o mundo dos sofrimentos, das injustiças e das desigualdades.
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