Rute afofou os travesseiros, a olhar pela janela por onde, na tarde anterior, ela o vira sair saltitante e sorridente, porque ia buscar os filhos.
Suspirou. Mais um fim de semana estragado! Quando ela o namorava, e mesmo após viverem juntos, ele saía nas tardes de sábado para visitar os filhos. Pouco depois mudaram - se de cidade e ele começou a trazê - los para os fins de semana a cada quinze dias.
Rute o conhecera casado. Gostara dele. Resolvera que seu futuro marido seria como ele. E, então, ele se desquitara. Rute se empenhara na conquista meio por brincadeira, pois afinal ela nem se havia formado e ele era tão mais velho ...
Ele aguardara a formatura dela para formalizarem o relacionamento, e , contra a vontade dos pais dela, foram morar juntos.
- Você só tem dezoito anos! - esbravejara o pai - E eu quero você casada, entendeu ? Casada de papel passado!
Casar era possível, mas demorado - somente cinco anos após o desquite a lei permite o divórcio. Longos anos a discutir com os pais, a esconder - se para transar e o mais. A situação desagradável impeliu Rute para fora de casa mais depressa do que ela desejaria.
Ele também a queria em sua casa, sem as correrias dos encontros de fim de semana competindo com o doido horário da profissão dele.
Este mesmo horário louco que deixava Rute sozinha nas horas mais desconcertantes e afinal ela o via tão pouco como quando era solteira e nem tinha mais o consolo das amigas e das horas livres de lazer. Agora havia trabalho - a casa, a comida, as roupas... - trabalho e uma grande solidão. Pois é claro, ela nem ousaria lastimar - se perante os pais. Era agüentar calada e não reclamar.
Por alguma razão misteriosa, ele não queria filhos. A própria Rute não os queria mais, agora que era obrigada a bancar a babá dos filhos dele dois fins de semana por mes.
Crianças são um pé no saco. Acordam cedo demais, reclamam da nata no leite, derramam açúcar , estão sempre famintas, desarrumam tudo, gritam e correm, brigam e choram pelas mínimas coisas, exigem atenção constante - para não falar das vezes em que molham as camas ou vomitam nos locais mais inconvenientes.
Rute perdera rapidamente a falsa imagem da maternidade - uma criança tranqüila ao seio de uma mãe sorridente. Os pestinhas realmente atormentam uma pessoa adulta, sadia e normal - infernizam a ponto de romper o equilíbrio emocional, esgotar as reservas de tolerância, acabar a boa vontade e sentir - se a ponto de gritar. Uma tortura !
Rute emburrava nesses fins de semana, pois ele freqüentemente saía para atender clientes e sobrava para ela todo o trabalho - a comida das crianças, o banho, as birras, os machucados, a inevitável trabalheira e todas as intercorrências possíveis.
Definitivamente, Rute desistira da maternidade. Arrumara um emprego, voltar a estudar, ia levando ...
Ainda achava - se perdidamente apaixonada por ele, uma paixão cansada de pouco encontrá - lo disponível. Evitava reclamar, pois este fora um ponto de choque com a ex - esposa e afinal, ela se casara com a profissão dele também, de livre e espontânea vontade. Na verdade, lá no íntimo, Rute não podia deixar de concordar com a ex - mulher dele.
Ele não dormira em casa. Este era outro ponto de atrito com a ex , quando ele se atrasava e pernoitava na casa da mãe. Rute detestava a grande cama vazia, saber - se a única pessoa na casa. Não confessava a angústia infantil de assaltos, sentia - se tola. E no dia seguinte mostrava se irritadiça e calada.
Ele sabia encantar - Ah, se sabia! As flores que enviava de surpresa, os bilhetes carinhosos sobre a mesa da cozinha, as noites românticas com jantares à luz de velas, passeios de mãos dadas à beira mar, os serões abraçados no escuro a ouvir música... Um tempo precioso, tão precioso, os poucos momentos de que dispunham para curtir juntos a vida - e ele sabia como ninguém encher de charme e fantasia os preciosos minutos de intimidade.
Pela janela, ela o viu chegando, assobiando alegremente e...sozinho! Certamente alguma criança com febre à última hora salvara seu fim de semana. Pobres frágeis criaturinhas de saúde tão delicada... Rute desceu pensando na agradável manhã de sol juntos, a partilhar mil bobaginhas de namorados e a se beijocarem e...
O rosto dele irradiava felicidade quando ele a segurou firmemente pelos ombros e comunicou - lhe, a seu jeito direto e franco, sem permitir que ela o abraçasse, que viera despedir - se e fazer as malas.
Rute mal conseguia acompanhar o que ouvia. A ex - esposa lhe telefonara na véspera porque queria reatar o casamento. Haviam conversado muito, ele dormira na casa dela e as crianças já sabiam que o pai voltaria para casa - estavam pulando e esperando por ele para comemorarem juntos o seu regresso. Ele não desejava magoar Rute, que ela entendesse, que ele fora fiel a ela, nunca a traíra, a proposta da ex o pegara de surpresa, porém ele já se resolvera e o casa com Rute estava terminado definitivamente e ele viera apanhar as malas. Demais pequenos detalhes resolveriam depois.
Rute mal o ouvia. Compreendia com a clareza aguda dos amantes desprezados que ele amava a ex - esposa, sempre a amara, nunca deixara de amá - la. A felicidade luminosa a irradiar - se dos olhos dele o confessava. Aquela felicidade doía mais do que um insulto, mais do que uma traição. Rute nunca significara para ele mais do que uma outra mulher - outra, outra, outra ... outra!
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