Maria passou por ele, no semáforo da Avenida 15. O que ela estaria fazendo pela periferia? Como seguisse pelo mesmo trajeto, João dispunha-se a chamar a atenção da mulher assim que o tráfego permitisse, quando ela virou... num motel.
João estacionou de chôfre, absolutamente perplexo. Nos 40 minutos seguintes ele conheceu o inferno.
Três homens desacompanhados entraram no motel depois de Maria, e nenhum deles saíra ainda. No entanto, era possível que o acompanhante de Maria houvesse chegado antes dela.
Passaram-se mais vinte minutos. Que diabos! Aquilo não era apenasuma traição, era uma orgia, com requintes de lascívia!
Mais meia hora e João, com um suor gelado a empapar-lhe a camisa, tomou uma resolução desesperada: entrou no motel.
_O senhor faça o favor de me informar em que quarto está a minha esposa, Maria dos Prazeres da Silva? – nunca antes o nome da mulher parecera-lhe tão ridículo. Ai do porteiro se viesse com gracinhas!
_Sua identidade.
_Como?
_É norma da casa – Eu anoto o RG das pessoas que entram aqui.
Ele entregou o documento, disposto a um escândalo, se o impedissem de entrar.
_O porteiro falou com alguém ao telefone e devolveu-lhe a identidade, solícito:
_Sua esposa o espera no 7, o terceiro à sua esquerda.
Era mesmo muita cara de pau da desavergonhada, dizer que o esperava. Com certeza o outro já saíra e ela queria evitar uma cena pública.
Noventa minutos bem contados. Em que ela desperdiçara tanto tempo?
...
Maria entrara no motel e pedira uma suíte luxo.
_Quem é o cavalheiro que a senhora está esperando?
_Estou sozinha.
_Sim, mas o seu acompanhante vai chegar daqui a pouco, suponha, e eu o enviarei a seu quarto.
_Estou sozinha e não espero ninguém.
_Compreendo – sem dúvida era uma daquelas mulheres independentes que queriam verificar o quarto antes de decidir-se.
Maria entrou, ligou o som, o vídeo, tirou a roupa, rolou no colchão de água redondo e admirou-se nos múltiplos espelhos. Ligou a hidromassagem e pediu pelo serviço de copa um champagne, duas taças e um bolo.
_Um bolo? – estranhou a copeira – Que tipo de bolo?
_É meu aniversário – explicou Maria – Um bolo confeitado, pequeno. De chocolate.
_Nós providenciaremos. Receio que demore uns vinte minutos.
_Tudo bem. Não tenho pressa.
Lá se iam vinte anos de casamento e o marido antiquado recusava-se a leva-la a passar uma tarde em um motel, como presente de aniversário.
_Eu tenho tanta curiosidade por conhecer um motel, João. Vamos?
_Mulher minha não entra em lugar frequentado por prostituta.
_Credo, homem! Prostituta também vai à feira, ao supermercado, ao cabeleireiro, ao cinema... e tanta amiga minha frequenta motel com o marido. Satisfaça este meu desejo. Vamos?
_Não, não e não.
Pois bem, então ela iria sozinha, resolvera.
Mergulhou na água morna e divertia-se a fazer espuma quando o telefone tocou pela primeira vez:
_Dona Maria, o Sr. A ... C... está procurando sua... amiga... É a senhora?
_Não, já lhe disse que não estou esperando ninguém.
Quando chegaram o bolo e o champagne, o telefone tornou a tocar:
_É para seu quarto que devo enviar o Sr. D .... M.... ?
_Não, não é!
Um pouco assustada, Maria serviu-se de champagne. Depois riu, ao ser surpreedida por um pensamento maroto: 'que conveniente, a gente chega sózinha e o porteiro fica a arrumar companhia...'
Quando o telefone tocou pela terceira vez, ela atendeu resiganada:
_Dona Maria, um certo João da Silva está aqui à sua procura.
_É meu marido!
_Vou mandá-lo entrar. – e a voz dele sova em triunfo, como se dissesse 'eu bem sabia que a senhora estava a esperar alguém.'
E agora?, pensou Maria, enquanto virava mais uma taça de champagne. Se João está aqui...
....
João entrou no quarto vazio. Na mesa, um bolo confeitado, uma taça de champagne limpa e uma garrafa quase vazia no gelo.
Seguiu até o banheiro.
_Entre, querido! Como você demorou! – imersa em espuma, uma taça nas mãos, a mulher jogou-lhe um beijo.
_Quer dizer que me esperava?
_Há mais de uma hora! Como você demorou!
_E como é que eu ia saber onde você estava?
_Ué, como você chegou aqui? Pelo recado que deixei no seu celular, que estava fora de área, para variar.
_Eu não recebi recado algum!
_Ora, João, não fique bravo, eu sei que você nào queria vir, mas é o meu aniversário. Até pedi um bolo.
_Eu não recebi seu recado.
_Certo, amor, então eu liguei no número errado e você me encontrou por telepatia, certo? Agora, me dê um beijinho, amor.
Ela levantou-se e dirigiu-se para ele, pingando, com flocos de espuma escorrendo pela pele.
_Maria, você bebeu!
_Estou tontinha, tontinha... alegrinha e doidinha por você...
Meia hora mais tarde, um João indeciso entre as delícias do paraíso e os tormentos da dúvida, perguntou:
_Maria, onde você aprendeu tanta novidade?
_Aqui mesmo, no vídeo, quer ver? – ela apertou um botão à cabeceira da cama – Passei um tempo assistindo uns filmes... cenas muito didáticas.
_Di – dáticas?
_Que aniversário maravilhoso, João. O melhor que já tive! Obrigado por ter vindo, querido!
O confuso marido rendeu-se.
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