28 de mai. de 2010

crônica - Ana

(recordações de infância)

Eu tinha seis anos quando minha tia mudou - se para Vila Mariana, um bairro de São Paulo.
Havia uma fileira de pequenos sobrados recém construídos, o último inacabado - e nele um pedreiro instalou - se com sua numerosa família e vivia ali em bons termos com toda a vizinhança, executando pequenos serviços a uns e outros a fim de reforçar o minguado salário.
Ana era uma negrinha miúda de grandes olhos arregalados, de minha idade, perdida entre meia dúzia de irmãos arrelientos. Nós brincávamos juntas na calçada, jogando bola, peteca, amarelinha, pulando corda...
Certa manhã, Ana chamou - me agitada, que a mãe chegara do hospital com um novo bebê, que eu fosse à casa dela ver o irmãozinho.
Fui pedir permissão à minha tia, pois naquele tempo as crianças pediam permissão para sair de casa. Ela olhou para os olhinhos brilhantes de Ana e concordou, desde que eu não me demorasse.
Entrei pela primeira vez no sobrado inacabado, criança mimada ignorante da existência dos pobres. Não havia móveis, nada além de um fogãozinho no andar térreo. Lá em cima, algumas caixas de papelão com roupas e alguns velhos colchões no chão. No quarto maior havia uma cama, da qual aproximei - me encabulada para olhar o pacotinho no colo da mãe de Ana. Mal pude acreditar no que via : um nenê branco de olhos azuis!
Fiquei muito quieta, observando - o mamar gulosamente as negras tetas da mãe, enquanto Ana, a meu lado, tagarelava sem parar.
O pai de Ana entrou, trazendo um copo de café ralo para a mulher e perguntou - lhe como fora no hospital.
- Muito bom - respondeu a matrona , expondo os dentes em um largo sorriso de satisfação - Pela manhã serviam leite com café, ovo, queijo e pão com manteiga. Um regalo!
Olhou para o café ralo, tomou - o e devolveu o copo ao marido, com um sorriso agradecido. Ele suspirou.
Pela primeira vez reparei na pele macilenta e esticada de Ana, em sua magreza tão diferente da minha, em sua pele seca, seu cabelo quebradiço, seu rostinho encovado de fome. Olhei para os irmãos dela com novos olhos.
Sentindo um aperto no coração voltei para a casa de minha tia, que riu - se muito ao ouvir meus comentários sobre o bebê.
- Logo ele estará negro como os pais. Filho de negro é como urubu : nasce branco.
- Tia, como é que alguém pode ficar tão contente por comer queijo e pão com manteiga no café da manhã ?
- Eles são pobres. Passam fome.
- Mas o pai trabalha, tia. E ele é tão alegre, sempre tão gentil!
- Trabalha, sim, mas o que ele ganha não é o suficiente. Eles nem tem onde morar porque não podem pagar um aluguel.
- Tia, o que vai acontecer com eles, quando o dono do sobrado resolver terminar a construção ?
Minha tia não respondeu.
E eu pensei na minha amiguinha e em seus irmãozinhos, descalços, com frio e com fome, a perambular pelas ruas de São Paulo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário