Luizinha sentou - se na carruagem, sorrindo radiante para o marido. Marcos segurou - lhe as mãos e deu ordens ao cacheiro para partir.
Logo os adeuses da multidão ficaram para trás. Marcos inclinou - se para a esposa e beijou - a. Ruborizada, Luizinha encarou o companheiro. Bem bonito, o seu marido, e ela estava apaixonada por ele.
Luíza pensava em como era feliz em poder casar - se com o homem a quem amava. Algumas mulheres casavam - se por imposição dos pais.
- Luíza ainda não completou quinze anos . Ela não é muito nova para casar ? - objetara a mãe.
Ao que o pai respondera :
- O moço é de boa família. Já está estabelecido na vida e ela gosta dele. Melhor casar de uma vez, pois uma filha solteira causa muitas preocupações.
A alegria da moça diminuiu ao lembrar - se da mãe, que trancara - se no quarto com ela, a prepará - la para ir à igreja, encarando - a com inexplicável tristeza.
- Estou bonita, mãe? Mas... por que chora ? O que aconteceu ?
- O casamento é um pesado encargo para as mulheres, minha filha. É preciso... Você precisa entender uma coisa.
- O que. mãe ?
` - Faça tudo que seu marido mandar, entendeu ? Tudo. As mulheres devem obedecer a seus maridos.
- Sim, mamãe.
- Faça tudo que ele quiser de você. Por mais estranho que pareça. Mesmo que ele lhe peça algo ... nojento. Ou doloroso.
A mãe retirou - se com ar sombrio. Através da porta, chegou - lhe a voz severa do pai :
- Falou com Luíza ?
A carruagem parou e Luíza logo esqueceu - se do mal estar causado pelas palavras incompreensíveis da mãe. O marido ajudou - a a descer e carregou - a nos braços para atravessar a soleira.
Anoitecia.
Luíza foi trocar o vestido de noiva por um traje caseiro. Ao voltar à sala, pôs - se a admirar com orgulho o seu novo lar.
Marcos abrira uma garrafa de champagne e brindaram.
- Não sabes o quanto esperei por este momento - disse ele.
Passearam pelo jardim admirando as primeiras estrelas, conversando alegremente.
Marcos a beijou repetidas vezes, com uma expressão fixa no olhar que começou a deixar Luíza inquieta.
- Que tens, Marcos ?
- Tenho vontade de cobrir - te de beijos - respondeu ele - Amo - te muito.
Luíza sentia - se mole, quente, sensações novas a assaltavam quando Marcos a tocava.
- Vamos deitar - propôs ele, enfim.
Luíza, envolta em nuvens de rendas rosas, mirou - se feliz ao espelho. Marcos abraçou - a, dizendo:
- Linda... és linda...
Luíza sentiu que as mãos dele puxavam sua camisola para cima e empurrou -as. Ele pediu a ela que tirasse a camisola e tirou o pijama. Ela olhou espantada para o pênis ereto do marido e exclamou :
- O que é isso ?
O rapaz encarou - a perplexo e confuso.
A moça agarrou - se à sua boneca predileta, que trouxera da casa dos pais e colocara caprichosamente sobre a banqueta da penteadeira.
- Vá embora, eu monstro!
Percebendo que ele pretendia aproximar - se, Luizinha pulou pela janela aberta, sempre agarrada à boneca , e ganhou a rua.
Marcos chamou - a em vão. Apressadamente, vestiu - se, praguejando contra o maldito pudor das mulheres.
Luíza só pensava em fugir. Corria pela rua deserta, em direção à casa dos pais.
De repente, virando uma esquina, trombou com dois rapazes embriagados que a agarraram, empurraram - na para um beco e arrastaram - na para um pátio deserto.
Após o que pareceu - lhe um longo pesadelo, os malvados se foram.
Nua, Luíza gemia baixinho, agarrada à boneca. Alguns momentos mais tarde, o portão abriu - se e deu passagem a um guarda. A moça não se mexeu quando o guarda aproximou - se e cobriu - a com o casaco de seu uniforme.
Outro homem aproximou - se. Marcos.
- Luíza!
- É sua esposa, senhor ? - disse o guarda - Que desgraça! Ela parece estar bastante machucada.
À luz do luar, Luizinha balançava - se para a frente e para trás sempre abraçada à boneca, olhando para lugar nenhum, cantarolando baixinho, atitude que manteria pelos próximos vinte e cinco anos, até o momento de sua morte.
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