28 de mai. de 2010

conto - Um homem apaixonado

Uma explosão de vida. Dinâmica. Alegre. Sensual. Apaixonara - se por ela assim que a vira.
Quando ele soube que ela era escritora, aproximou - se timidamente para pedir - lhe que lesse o seu romance. Ela não se interessou. Disse: “Sou poeta, não sou crítica de arte e também não tenho tempo para ler um grande romance.”
Ele recolheu -se a seu canto, conformado com o desinteresse habitual pela obra de um escritor desconhecido, a trilhar seu difícil caminho.
Em outras ocasiões, ele a viu declamar. Que gestos! Que voz! Encantado, ele esvoaçava ao redor dela, sorvendo cada palavra do que ela dizia.
Escreveu um conto, inspirado nos poemas dela, com tanto sentimento que foi premiado em um concurso em primeiro lugar.
Desta forma ele ganhou as manchetes do jornal da cidade, sua foto e o conto premiado, em destaque na edição de domingo. Entrevistado em um programa de rádio, ele admitiu a intertextualidade, baseado nos poemas dela.
Ela então telefonou cumprimentando - o, elogiando o conto e convidando - o a freqüentar a roda de intelectuais que ela liderava. Foi desta forma que ele conseguiu que ela lesse e prestigiasse, enfim, os textos dele.
Ela chegou - se, amável, tornou - se sua íntima amiga e sócia na edição de uma revista literária. Ele, enamoradíssimo dela, sem coragem de declarar - se, mantinha o coração esperançoso.
Após meses de trabalho intenso, ele conseguiu que uma editora bancasse a publicação de seu livro. Estava planejando a noite de autógrafos quando aconteceu.
Por uma segunda vez ele foi premiado em um concurso. Ela também, no mesmo concurso. Ele, em primeiro lugar, ela, em terceiro. Ele saiu na primeira página do jornal, com foto inclusa e seu texto publicado na íntegra. Sobre ela, uma pequena nota na segunda página.
Ele, feliz, cada vez mais envolvido pelo charme dela, viu - se subitamente ferido em seu afeto quando ela surgiu como uma fúria cortando relações e proferindo impropérios, indignada por ter sido relegada a segundo plano. Ela, a maior escritora daquela terra até então!
Ele a percebeu como ela realmente era: uma explosão, sim. De egoísmo. Um monumento de orgulho. Mesquinha . Interesseira. De que outra forma compreender uma amizade que se desfaz devido a uma notícia de jornal ? Ele era, agora, o autor mais célebre da cidade e ela não o perdoava por isso. Como se estivessem ambos em alguma competição! Como se não houvesse suficiente espaço para os dois! Não, ela fazia questão de brilhar sozinha.
Chegou a noite de autógrafos. Triunfo que ele pretendera compartilhar com ela. Noite que ele sonhara encerrar com uma declaração de amor.
E o jornalista a perguntar - lhe, em frente ao público:
- Houve alguém que o apoiou de modo especial ?
Ela! Ela! Ela!
Ele planejara todo um discurso agradecendo o apoio dela, sua talentosa amiga, sua musa inigualável.
Aí ela entrou discretamente no salão (dissera que não viria). Aproximou - se, séria, com olhar de desculpas, aplaudindo - o com um sorriso de sereia.
Não só a imprensa estava presente, mas também a TV local. O êxito dele tivera um alcance maior do que o previsto.
Ele fez uma pequena pausa, um suspense, antes de responder:
- Sim. Há uma pessoa que me apoiou e me incentivou muito em meu caminho - olhava para ela - Sei que sempre poderei contar com esta pessoa.
Ela deu um passo na direção dele, toda glamurosa, feiticeira.
Ele completou, sério, a fitá - la:
- Minha mãe.

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