28 de mai. de 2010

A auditoria

(este conto foi classificado na fase regional do Mapa Cultural Paulista - 1996, representando a cidade de Bebedouro)

Aconteceu em Comedouro, no distrito de Taca - Água, umas dezenas de casas bem dispostas ao redor de uma simpática praça. Liam - se aqui e ali placas de “proibido bicicleta” e “não jogue bola”. Assim, na praça vazia faltava a alegria da meninada.
O lugarejo era tão pequeno que a prefeitura agrupou em um mesmo terreno a parada de ônibus, o balcão dos correios, o orelhão da Telesp e o posto de vacinação.
Quer dizer, a princípio fora um posto de vacinação. Pois o vereador local pedira melhoramentos e o prefeito enviou três médicos, um dentista, uma assistente social, uma nutricionista, uma educadora de saúde e um funcionário que vinha dois dias por mês para receber as contas de água e luz da população.
Uma perua da prefeitura aparecia semanalmente para repor material e medicação, mas o vereador pedia melhoramentos, e a perua foi substituída por uma ambulância, que duas ou três vezes ao dia passou a fazer o percurso entre Comedouro e Taca - Água. Havia pois muitos e graves doentes no distrito ? Nada disso, mas não faltavam pessoas querendo pegar uma beira, e já que a ambulância ficava ali ociosa... Assim, a caronambulância servia a população, para alegria geral. Aliás, diga - se de passagem, é mera questão de justiça _ se há o trem da alegria para os poderosos, porque não uma ambulância da alegria para o Zé Povinho ?
Enquanto nos grandes centros doentes graves aguardam horas nos corredores, em Taca - Água os profissionais de saúde discorriam sobre higiene mental e trocavam receitas com os pacientes. Foi assim, que, por puro acaso, o distrito de Taca - Água tornou - se um centro de Medicina Preventiva. Os profissionais já estavam ali , e a população, que não tinha mesmo outra distração ( havia um guarda na praça para impedir que pessoas desocupadas ocupassem os bancos ) , vinha diariamente ouvir as notícias da cidade e aí não custava nada dar uma olhadinha nos dentes, na pressão, no peso ...
E no 4°mundo é disso mesmo que se precisa : prevenir, para não precisar. Porque se precisar, já se sabe, falta tudo. Falta remédio, falta seringa, falta espátula, chega a faltar toalha e sabonete e até mesmo água.
Foi em um destes períodos de falta ora isto ora aquilo que apareceu o cachorro sem dono. Sarnento, perebento e diarreico, foi logo se ajeitando no pedaço, nicho protegido do sol forte e da chuva e chão cheio de apetitosas migalhinhas de biscoitos que a criançada fatalmente deixava cair.
Já no primeiro dia batizou a calçada com sua diarréia, e era passageiro de ônibus a cruzar pela sujeira, criançada a pular por cima e a pobre da faxineira a limpar com água, que sabão estava em falta.
Seguiram - se dias nada monótonos. Era abrir o posto e o bicho instalava - se no gabinete médico ou dentário, a arreganhar os dentes para o dentista, para o médico, para a clientela, para os funcionários. Era grande, forte, só mesmo o motorista da caronambulância podia com ele.
Sorte foi que a mania de melhoramentos do vereador local resultara na contratação recente de uma tal de auxiliar de portaria que ninguém sabia bem o que era. Na falta de outro serviço , colocaram uma vassoura na mão da moça e deixaram - na vigiando o local. Caso o cão se aproximasse, ela deveria correr atrás dele a vassouradas.
- Se este bicho morder o meu filho, eu processo você. - ameaçou uma mulher.
- Eu ? Por que eu ?
- Ora, alguém tem de ser responsável por isto !
O Serviço de Saúde eximiu - se e encaminhou o caso à Vigilância Sanitária , que declarou - se disposta a agir de imediato:
- Vamos contatar o dono do cachorro.
- O cachorro não tem dono.
- Como ? Então não temos nada a ver com a história. Tentem o Matadouro Municipal.
O matadouro aconselhou que ligassem para os bombeiros.
- Só pegamos cachorro louco . Cachorro sadio é com a Protetora dos Animais.
- Quem está molestando o cachorro ? - quis saber a Protetora .
- Ninguém, mas...
- Então nada temos com isso.
- ... o cachorro está molestando as pessoas.
- Nós só agimos se alguém estiver molestando o cachorro.
- E se alguém der vassouradas nele, vocês vem buscá - lo ?
- Não, claro que não. Acionamos a polícia.
- Para prender o cachorro ?
- Não, para prender o molestador do cachorro.
- E o cão vai continuar solto ?
- Pois claro, animal também tem seus direitos.
Foi então que chegou o auditor, para esperança de todos, a fim de fazer a inspeção anual do posto:
- A minha função é garantir a ordem. Há algum problema grave por aqui ?
- Há o cachorro...
E todo mundo pos - se a falar ao mesmo tempo. O auditor, contudo, parecia não ouvir. Ele estava muito intrigado com a posição das cadeiras.
- Esta cadeira - disse ele - deveria estar do outro lado desta mesa.
Havia sacos de lixo acumulados, pois a faxineira saíra de férias , não havia substituta, e , com a correria atrás do cachorro, ninguém se lembrara do lixo.
O auditor, porém, estava tão ocupado em verificar a exata posição da mesa, que nem se deu conta da sujeira.
- Esta mesa - disse ele com ar muito importante - deveria estar virada para a direita.
- Assim ficaria de frente para o sol - explicou a paramédica - Há material em falta : seringa para as vacinas e gaze esterilizada para os curativos. O senhor vai providenciar ?
- Como ? Este material não deveria ter saído do almoxarifado!
- Não ?
- É evidente, não ? Se vocês usarem o material, ele acaba! Aí vai faltar! É por isso, entendem, que ninguém, mas ninguém mesmo, deve mexer no material !
- Mas...
- Vamos, há algum problema realmente sério acontecendo agora ?
- Ah, sim, há o cachorro. Hoje pela manhã ele avançou em uma criança.
- Já retiraram a criança? Que mãe irresponsável é esta que traz uma criança aonde há um cachorro ? - exclamou o auditor. E completou , severo : - Medidas enérgicas precisam ser tomadas aqui para coibir os abusos!
No dia seguinte a auditoria tomou as medidas cabíveis.
- Que bom ! Resolveram o caso do cachorro!
- Nada disso. Despediram a enfermeira. Ela havia - imagine! - inadvertidamente, trocado a posição das cadeiras.

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