28 de mai. de 2010

crônica - A casa

(minha primeira crônica, aos 15 anos)


Há muitos anos atrás, havia brinquedos espalhados por todo canto. Bicicletas, bolas, bonecas - e risos, muitos risos.
Passou - se o tempo. Perderam - se as bolas, enferrujaram - se as bicicletas, guardaram - se as bonecas. A música começou a reinar naquela casa. De manhã à noite, os acordes bailavam no ar. E ainda havia risos, muitos risos.
Até que cessou a música. Ouviam - se apenas os passos firmes que abriam e fechavam a porta pela manhã e retornavam ao final da tarde. À noite, o jornal, que jazia abandonado durante todo o dia, abria - se e fechava- se. Na cozinha, a água fervia na chaleira. O aroma adocicado do chá desprendia - se de duas chávenas colocadas uma em frente à outra. E ainda havia risos, muitos risos.
Ano após ano, os passos tornaram - se arrastados e já não abandonavam a casa. Vidrinhos de remédios surgiram sobre a mesa, ao lado do bule de chá. E duas longas agulhas digladiavam - se agora durante todo o dia, enquanto novelos coloridos de lã ou linha rolavam pelo chão. Duas cadeiras de balança oscilavam, para frente e para trás, para frente e para trás, e a doce cadência dos rangidos acompanhava os cada vez mais raros risos.
Um dia, as agulhas se calaram. Os novelos de lã esconderam - se dentro do armário. Agora apenas uma xícara de chá esfriava esquecida sobre a mesa. E um novo som vinha quebrar o silêncio : um choro fraco e entrecortado que perdurava do por do sol até a madrugada. Nunca mais houve risos.
Por fim o último vidro de remédio caiu sobre o tapete e espalharam - se as pequenas pílulas. A cadeira de balanço imobilizou - se. Os passos silenciaram. O choro cessou.
A casa mergulhara no silêncio.

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