Assim que a percebi, parei e retrocedi, não fosse a barata voar em minha direção. Às sete da manhã, há de se convir, é ousadia demais!
Nos corredores do ambulatório, ela bailava em zigue-zague. Emitindo reflexos castanhos-dourados à luz que se infiltrava pelo corredor. Visão até poética, fosse outra a bailarina. Essa apenas denunciava a nossa decadência. Convenhamos: baratas são arredias, vivem escondidas; quando surpreendidas parecem ter mais medo dos humanos que o inverso. Para cada barata dançarina, adivinho todo um corpo de baile oculto nos consultórios.
Há anos trabalhar no Ministério da Saúde significa fazer jus ao adicional de insalubridade. No verão passado, convivi bem com a explosão demográfica das cigarras, que estavam por toda parte – nas paredes, na maca, na balança, até nas gavetas. Eu as recolhia em caixas, cuidadosamente, e as soltava no jardim. Elas agradeciam encantando-me com sua orquestra de violinos.
E no verão anterior houve a invasão dos mosquitos. Fiquei “ dengosa”, apesar de acampar no trabalho besuntada de repelente.
Estoicamente, vou levando...mas...baratas? Começo a desconfiar que se trata de um plano maquiavélico de FHC contra nós, os federais, pois há seis anos ele tenta acabar conosco, sem o conseguir.
Não adianta, FHC. Resistirei!
* FHC = Fernando Henrique Cardoso - ex-presidente do Brasil
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