28 de mai. de 2010

crônica - Comunicação

Adoro cartas.
Sou uma desses pessoas que detestam telefones. Não sei conversar sem ver os olhos, as mãos, a mímica facial de meu interlocutor. Os sons das palavras saem pelo fio destituídas de qualquer sentido. Será que do outro lado alguém estará bocejando, olhando o relógio ou assistindo à Sessão da Tarde? Terá meu telefonema interrompido um beijo, os cálculos do Imposto de Renda, uma briga familiar?
Isto, bem entendido, quando se consegue a ligação, pois as linhas estão freqüentemente ocupadas, ou ninguém atende, ou então, o que é mais frustrante, há do outro lado uma parafernália eletrônica que educadamente anota recados.
Além de sentir-me uma idiota ao falar com uma máquina, fica a desconfiança de que o outro está confortavelmente a ver o futebol, saboreando uma loira gelada e ouvindo perfeitamente os recados pela ‘viva voz’ - atenderá se quiser.
Telefonemas são sintéticos, frios, objetivos. Nada de sutilezas sentimentais. Não há espaço para as nuanças das entrelinhas.
Em uma carta, a alma esparrama-se como um gato em um tapete macio. O telefone nos tolhe como uma camisa de força. Há sempre o risco de interrupção - a campainha, uma criança que chora, uma panela no fogo. A carta, pelo contrário, nunca é inconveniente - se não chega em momento propício, nós a guardamos para ler mais tarde com a atenção devida a um amigo querido.
Hoje, contudo, a amizade existe em razão direta da distância. Apesar do advento da Internet, a comunicação atual é telegráfica e superficial. Na Era da Informação, as pessoas tem pavor de expor-se.
Tenho esperança de que o hábito de escrever longas e afetuosas cartas volte a ficar em moda. Enquanto isso, para não perder o costume, vou escrever um diário.

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