Na alegria do Carnaval, eu, minha esposa e meu filho nos fantasiamos com máscaras brilhantes, enfeites nos cabelos, roupas de piratas e fomos brincar na privacidade de nosso camarote, como fazemos há anos.
Como é de praxe, levamos um isopor com sanduíches e refrigerantes, levamos bastante pois sempre acabamos por repartir alguns com os ocupantes dos camarotes vizinhos.
Este ano, contudo, tivemos uma experiência amarga. Ao nosso lado instalou-se um jovem casal. Pois não é que o casal chamou o diretor social do clube para que nos mudassem de lugar?
- Minha esposa está grávida. E se ‘isto aí’ a agredir?
- É um absurdo permitirem a entrada de ‘gente desse tipo’. Não ficarei por mais nem um minuto ao lado de uma aberração dessas!
`Foi um choque descobrir que eles estavam falando do Serginho. Do meu gentil e afetuoso filho!
O diretor comprou a briga a nosso favor - éramos sócios, o camarote era nosso, o rapaz tinha tanto direito de se divertir quanto qualquer outra pessoa, se ‘eles’ quisessem mudar de camarote, bem, aí ele veria se havia um outro disponível.
- Ele não é agressivo? - insistia o outro - Prefiro não arriscar. Vamos mudar para outro camarote.
Serginho, inocente, nem percebeu que causara tanta agitação ao lado. Eu e Lúcia não respondemos às provocações e dispensamos as desculpas do diretor do clube pela cena desagradável. Meu coração, contudo, confrangeu-se com a insensibilidade, a falta de caridade, sobretudo com a ignorância daqueles dois jovens.
Há quinze anos nosso filho, portador da síndrome de Down, vem enriquecendo nossas vidas, bondoso, prestativo, alegre e educado. Quando vejo por aí jovens drogados, pichadores de muros, fúteis e sem valores morais, roubando, matando, incendiando mendigos de madrugada por falta de ter o que fazer, sinto-me abençoado. A verdadeira desgraça é ser pai de algum criminoso de colarinho branco ou de um serial killer.
Na semana da Páscoa fomos ao pediatra, para a consulta anual de Serginho. Nossa pediatra é especializada no tratamento de Down e de outras anomalias genéticas.
Eis que ao entrar na sala de espera, quem vemos? O casal do camarote ao lado, com um recém-nascido nos braços. Claro que eles não nos reconheceram sem as máscaras.
Minha esposa queria ir embora, mas eu a impedi. Naquela sala eles não poderiam agredir o Serginho.
O homem olhou-me triste e comentou:
- É nosso primeiro. Estamos desesperados. Ele é Down.
Não o consolei. Que diabos, sou humano, afinal! E lembrei-me do desdém da moça que não queria ficar nem um minuto a mais ao lado de uma criança doente.
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