I
Há quem acredite em destino.
Há quem acredite em livre-arbítrio.
O fato é que nem sempre é fácil perceber quanto do que nos acontece deve-se a nossas próprias escolhas e quanto é mesmo inevitável.
Estou aqui a pensar na história de Valquíria.
O noivo de Valquíria morrera. Ela tinha dezenove anos e estava profundamente apaixonada.
Valquíria perdera os pais aos quatro anos. Fora educada por tios severos. Para ela, somente o amor dava significado à vida, e por amor, ela entendia um sentimento exclusivo e mútuo entre um homem e uma mulher. Amor universal, amor altruísta, amor a Deus, amor a um ideal, essas eram para ela expressões vazias de sentido.
E Renato era “ele”. Definitivamente. Desde a pré-escola estavam juntos. Conheciam cada olhar, cada gesto um do outro. Tinham objetivos comuns e idéias afins.
Valquíria se apegara de tal modo a Renato que, quando ele morreu, ela morreu junto. A diferença foi que, para ela, a agonia da morte não durou alguns minutos, prolongou-se por anos.
Valquíria não chorou. Ela não chorara no enterro dos pais e não chorou no velório do noivo. Pensaram os familiares que ela não chorara os pais por ser criança e não compreender a morte; que não chorara o noivo porque estava em choque ou porque era forte; era moça e se recuperaria.
Quando os pais morreram, Valquíria sonhou que estava em um deserto. À medida que ela crescia, o sonho se repetia de tempos em tempos acrescido de pequenos detalhes: um avião quebrado, estrelas, o Pequeno Príncipe visto de longe...
Valquíria gostava de ler sobre sonhos, livros de autores sérios, como Freud e Jung; muitas vezes analisava os sonhos das amigas com sucesso. As amigas sempre sonhavam com fatos lógicos e claros, a escola, as lições, os bichos de estimação. Valquíria sonhava com livros, lendas, filmes, fatos históricos, enfim, com coisas que nada tinham a ver com ela.
Quando Renato morreu, Valquíria sonhou que corria pela noite carregando a lira de Orfeu e procurava pelo barco de Caronte à margem do rio Estige, mas uma espessa neblina encobria tudo e ela não via mais nem lua nem estrelas nem rio nem nada. A partir deste dia ela desinteressou-se pelos sonhos.
A verdade é que Valquíria tinha um segredo.
Valquíria vira o noivo ao lado do caixão. Ele lhe dissera: “Eu continuo amando você com toda a minha alma. Eu estou feliz e quero que você tenha uma vida feliz.” Ele estava envolto em luz dourada, sorrindo, e desintegrou-se diante dela.
Aos quatro anos, Valquíria vira os pais se aproximarem dela, um de cada lado. Eles a abraçaram e disseram: “Não conte a ninguém que está nos vendo. Não conte a ninguém que você vê os mortos. Este é um dom que deve permanecer em segredo até que você se torne adulta e decida o que fazer com isso. Nós a amamos muito e sempre estaremos com você. Nós protegeremos você. Seja feliz, querida.”
Pois Valquíria era vidente. A mãe dela também o fora.
A família de Valquíria, como muitas famílias brasileiras, era kardecista e encarava com naturalidade o mundo dos mortos. Os pais de Valquíria queriam que a filha tivesse uma infância normal, que não fosse vista como diferente, esquisita ou especial, que não fosse tratada como uma anomalia, uma louca ou uma criatura privilegiada por Deus.
Valquíria sabia que muitos videntes procuravam a escola de médiuns e aprendiam a ajudar os mortos que ficavam presos à terra. Ela não queria fazer isso. Ela não falava com os mortos e eles não a procuravam. Ela apenas os olhava como parte da paisagem, sem nenhum sentimento por eles.
“Deixai os mortos cuidarem dos mortos”, dissera Jesus, em algum lugar da Bíblia. Valquíria concordava com Ele. Cuidar da própria vida era por demais complicado para que ela se interessasse por outras pessoas, fossem elas vivas ou mortas. Exceto, é claro, por Renato, mas Renato não era uma outra pessoa, Renato era parte integrante de Valquíria, ela o sentia no ar que respirava, sob a pele, dentro do peito.
E então, ele se fora.
E um enorme vazio ficara dentro dela.
II
Em seu quarto, no escuro silencioso, Valquíria passou a noite em claro, lamentando o desmoronar de seus projetos de vida. Ela não pedia muito da vida, apenas a oportunidade de criar uma família feliz. Um marido, filhos, uma casa confortável.
Então ela se deu conta de que ainda poderia ter os filhos e a casa. Como ninguém poderia ocupar o lugar de Renato em seu coração, qualquer um que passasse pelo filtro fundamental serviria. O filtro fundamental era um conjunto de fatos simples: idade, classe social, ausência de vícios, gosto pelas artes, aparência agradável.
Valquíria era uma criatura prática. Rapidamente selecionou, entre os rapazes que conhecia, um que agregava o dom precioso de gostar dela. No primeiro dia de aula, mal se conheciam e ele se declarara.
- Sou noiva – Valquíria desconversou.
- Pois ouça o que lhe digo, vou casar com você, porque você é a minha escolhida.
-Petulante!
O fato é que Alfredo não desgrudava dela. Ele fizera-se amigo dos amigos dela, mostrava-se gentil e útil de todos os modos, conversava bem e seu comportamento era tediosamente correto de qualquer ângulo. Um chato. Manipulável, portanto, servia.
Valquíria deixou-se consolar por Alfredo, abriu-se em meias confidências, baixou a guarda, procurou seu ombro amigo, permitiu um abraço, esqueceu a cabeça apoiada ao peito dele, facilitou o primeiro beijo e atingiu seu objetivo: casou-se e garantiu um lar para a futura prole.
Valquíria formou-se com boas notas, contudo jamais recuperou o entusiasmo pela profissão. Ela fizera tantos planos com Renato que o que sobrara tinha gosto de premio de consolação. Ela se limitava a saber a matéria, sem maior empenho. Quando começou a trabalhar, não se comprometia com os resultados.
Em seus relacionamentos pessoais, Valquíria evaporava, quero dizer, ela nunca estava realmente presente, ela era apenas um corpo com ouvidos, que às vezes pronunciava palavras banais e lugares comuns. O único ser humano que interessara a Valquíria fora Renato e Renato não estava mais ali, portanto, ela se desinteressara pela humanidade inteira.
Fora relativamente fácil namorar Alfredo, um homem de poucas exigências. Bastava-lhe que a mulher fosse bonita e fiel. Por outro lado, ele tinha tão baixa auto-estima que não se importava em ser a segunda opção e afirmava saber perfeitamente que jamais estaria à altura do rival morto. Valquíria tinha, contudo, de reconhecer que exigia coragem competir com um morto, combate este perdido de antemão, já que os mortos não podem ser diretamente confrontados e falar mal de um morto coloca o oponente em desvantagem.
Alfredo deixava que ela escolhesse os passeios e fazia-lhe todas as vontades. Para evitar falar de si, Valquíria fingia interessar-se pela vida de Alfredo e enquanto ele falava, ela sorria encantadoramente sem realmente ouvir, repetindo eventualmente uma palavra ou outra para reforçar o monólogo.
Valquíria lidava com o sexo como lidava com um jogo de xadrez, de cartas ou tênis de mesa. A questão resumia-se a aprender as regras, fazer os lances mais lógicos e dedicar-se a melhorar a performance, para jogar com elegância. Deixar o adversário pensar que ganhou garantia o bom humor do parceiro. E se ela fechasse os olhos, recuperava a memória de Renato e tentava trocar a realidade pela fantasia: o toque dele, o cheiro dele, o calor dele, até a saudade desabar cruel; então ela esperava o marido adormecer para chorar às escondidas.
Um acontecimento importante na vida de Valquíria foi o nascimento de seu filho. Ao invés de nascer com olhos e cabelos escuros, como ela e Alfredo, o garotinho era loiro, de olhos verdes e pele branquinha, como os avós italianos de Alfredo. Como Renato.
Quando Valquíria pegou o filho no colo pela primeira vez, um calafrio de horror a percorreu:
- Será que Renato reencarnou neste menino para viver a meu lado?
III
Valquíria acordava de madrugada, sentindo o bebê mexer-se no berço. Levanta-se no escuro e pegava o filho antes que este começasse a chorar. Sentava-se na sala, ligava o som para ouvir em surdina músicas orquestradas e suaves – as favoritas de Renato – para que a criança associasse as belas músicas ao bem-estar.
Enquanto o menino mamava, ela observava cada traço de seu rosto pensando “este é o filho que nós poderíamos ter tido, Renato e eu”. E procurava por semelhanças entre o pequenino e o falecido.
Quando o garoto, saciado, empurrava os seios com a mãozinha e abria os olhos, Valquíria estremecia. O mesmo olhar. E ela mergulhava no oceano verde da memória, sofrendo a ausência do amado.
Valquíria trocava as fraldas, colocava o filho para dormir e deixava-se ficar na cadeira de balanço a seu lado, perguntando-se se seria possível que Renato houvesse voltado para ela na pessoa do filho. Ela não queria aceitar a hipótese de reencarnação, seria absolutamente cruel trocar uma vida conjugal – o carinho e a proteção de um marido – pelos encargos da maternidade. Ele é quem deveria cuidar dela, não o contrário!
Havia outras implicações. Se o filho fosse realmente Renato, não estaria ela de certa forma cometendo adultério?
Valquíria, mulher prática, cedo concluiu que fixar-se nessas idéias não a levaria a lugar algum, e as respostas e essas dúvidas não ajudariam em nada sua vida.
Assim, ela dedicou-se ao filho como quem cuida de um deus e rezava todos os dias pela felicidade de Renato, fosse ele quem fosse, estivesse ele onde estivesse.
E à medida que o menino crescia, mais ela via no verde de seus olhos o olhar de Renato, em suas falas a voz de Renato, em seus sorrisos a alegria de Renato. Ela moldava o filho à imagem do amado e dirigia seus gostos para os gostos de Renato, compartilhando com ele suas músicas, seus quadros, suas leituras favoritas.
Alfredo não percebeu ou não queria perceber o que ocorria.
Ou quiçá ele estivesse mais preocupado com as finanças da família, pois Valquíria era especialista em gastar e uma catástrofe em ganhar dinheiro.
Valquíria, que terminara o curso universitário como um autômato, passava pelo local de trabalho como se este fosse um incidente de percurso. Ela comparecia pontualmente e só. Não se lembrava do nome ou da história do cliente a menos que checasse o prontuário antes da consulta. Freqüentava congressos e palestras de atualização como quem se submete a torturas. Só retornava as ligações se a secretária a lembrasse por escrito. Demorava a atualizar seu material de trabalho.
Alfredo se desesperava:
-Mulher, você não está nem aí para seu trabalho.
- Não estou,mesmo. Prefiro minha casa, meu filho, minha família.
- E será que eu estou incluído nesta ‘família’? Você poderia ter dito ‘minha casa, meu filho, meu marido’, porque cônjuge não é parente.
- Não sou advogada.
- Não, é a pior dentista da cidade. Pelo prejuízo que você dá no consultório, seria preferível que arrumasse um emprego e vendesse o equipamento.
- Se você quer alugar meu consultório para outro dentista, alugue! Eu prefiro mesmo ficar em casa.
Valquíria não ficou em casa. O filho ficava na escola, no período da manhã, enquanto ela passeava pela casa assombrada pelas lembranças. Valquíria evitava a solidão, porque sempre que estava sozinha sentia de novo Renato sob sua pele, dentro do peito, no ar que respirava; voltava-se para procurá-lo, a dor a apunhalava fortemente e as lágrimas saltavam com fontes borbulhantes.
Valquíria não tinha nenhuma foto de Renato consigo, nem precisava. Ele estava gravado em sua retina, mais nítido que se marcado a ferro em brasa em sua carne.
Valquíria passava de um emprego a outro, sem se incomodar com isso. Não lhe ocorria ser mais solidária, mais participativa, mais educada.
Gastar era com ela – belas roupas, livros, discos, comida requintada, pequenos luxos para ela e para o filho, um brinquedo, ingressos para teatro, excursões de fins de semana. Nas férias queria os melhores hotéis, os restaurantes da moda, as viagens mais badaladas – despesas pagas por Alfredo, naturalmente.
Ela se justificava: “já que não posso ter amor, ao menos terei tudo o que o dinheiro pode comprar.”
Em vão Alfredo poupava loucamente para satisfazer aos caprichos de Valquíria. Embora linda, exuberante, produzida, o riso dela, alto demais, revelava que ela não era feliz.
No hotel mais caro, no restaurante mais elegante, na paisagem mais deslumbrante, ela pensava: “ah! Se eu houvesse me casado com Renato, como nós estaríamos felizes compartilhando este momento!”. Como Renato não estava ali, o momento perdia sua beleza. O mundo ficava preto e branco, silencioso, frio, inatingível.
Em vão ela mentia chamando Alfredo de melhor marido do mundo. Ele compreendia.
Após dez anos de casamento, ele ou desistiu de conquistá-la ou recuperou o amor-próprio. Divorciaram-se.
IV
Valquíria lembrava-se do divórcio como um borrão cinzento e úmido.
Era inverno e uma garoa fina abatera-se sobre a cidade por três semanas a fio.
O filho preferira a companhia do pai, decisão incompreensível para Valquíria, que não compreendia que o tempo passado com o pai pudesse ser mais saudável para um jovem que a sufocante atenção de uma mãe superprotetora.
Valquíria não tinha amigas – para que? Não procurava a família – para que? Mal sabia o nome dos vizinhos – para que?
Ela deixava-se ficar sentada no escuro, defronte à vidraça, observando a chuva interminável e o cinza chumbo do céu.
Foi a tia que exigiu que Valquíria fizesse um trabalho voluntário, para arejar o “sótão”, que era o modo de a tia se referir ao cérebro.
Valquíria deixou-se arrastar sem realmente interessar-se em ser caridosa, pois ameaçavam trazer um psiquiatra para consultá-la em casa. Como no trabalho, cuidava mecanicamente dos dentinhos da criançada da favela.
Certa manhã, uma adolescente trouxe um recém-nascido à sede da instituição:
- Eu não quero isto. Achei melhor entregar para adoção que jogar no lixo. Uma enfermeira lá no hospital me garantiu que vocês podem arrumar uma família boa...
Foi então que começou uma reviravolta na vida de Valquíria. A assistente social, Angélica, pediu ajuda a ela:
- Você tem carta de motorista, venha comigo.
Valquíria dirigiu, enquanto Angélica ajeitava o bebê no carrinho adequado, no banco de trás. Elas foram ao curador de menores, a um advogado, a pequenas compras urgentes, como fraldas, leite, mamadeiras.
Havia um problema, dissera o curador: a mãe era menor de idade. Explicou os procedimentos legais detalhadamente. Angélica anotava, preenchia formulários, Valquíria segurava o bebê.
O advogado telefonou a um casal que desejava a adoção, marcou o encontro, e, enquanto assinavam papelada após papelada, Valquíria segurava o bebê.
Ia anoitecendo e Valquíria continuava a dirigir, levando a colega e o bebê de um local para outro, em uma correria ansiosa, até que, ao fim da tarde, o bebê foi legalmente entregue à guarda provisória do casal que se propunha à adoção.
- Graças a Deus! – desabafou Angélica – Se eu não entregasse hoje esta criança a este casal, eu é que teria de adotá-la.
- Que absurdo! Você não é obrigada a isto!
- Obrigada? Quem falou obrigada? Minha querida, se esta criança dormisse em minha casa, eu é que não poderia mais me separar...Você a segurou, não ficou apaixonada por ela?
- Como é que é? Você se apegou àquela criança?
- Ah, eu já estava olhando para ela como se fosse minha filha. Tão frágil! Tão pequenininha! Tão fofinha! Eu não teria mais coragem de entregar a pequena a ninguém, se eu ficasse com ela até amanhã.
Valquíria se lembrou de quantas mulheres conhecera em sua vida profissional, que adotaram crianças desconhecidas, abandonadas na rua, jogadas no lixo, maltratadas pelos pais verdadeiros. Ela jamais compreendera este sentimento altruísta de fazer o que outro precisa no momento em que é preciso, sem se perguntar quais as conseqüências pessoais. Gastos, tempo, limitações – tudo parecia um preço enorme para Valquíria. A criança ganhava um lar, e a pessoa que adotava, o que lucrava? Só trabalho e preocupações.
Valquíria estava longe do filho, porém nem pensaria em se ocupar de outra criança.
Angélica perguntou a Valquíria:
- Você não ficou sensibilizada?
- E por que ficaria? Eu só a segurei. Eu poderia estar segurando qualquer outra coisa, um pacote, um saco de batatas. Para mim, foi indiferente.
Angélica pareceu horrorizada:
- Bem, minha querida, eu tenho uma informação para você: você não estava segurando um saco de batatas!
Nessa noite, Valquíria sonhou:
“O pai se aproximava dela e ela desabafava como era inútil esse trabalho voluntário e que loucura cometia esse casal que adotava uma criança estranha.
- Você não tem coração, minha filha? – perguntava o pai, severo.
Surpresa com a reprimenda, Valquíria levava a mão ao peito e tocava um coração de chumbo.
Quando ela era menina, as freiras do colégio diziam que as pessoas tinham corações diferentes. Os bons tinham corações de ouro, os buscadores do caminho tinham corações de prata ou de bronze, e os pecadores, de chumbo.
Horrorizada, Valquíria viu o pai dar-lhe as costas e retirar-se levando Renato consigo. Renato, que, sério, entregou-lhe um bilhete antes de partir: só existe um caminho, querida – para frente.”
Valquíria acordou suando, sufocada, na maior tristeza. Deu-se conta de que estacionara no tempo, no momento em que recebera a notícia da morte do noivo.
Ela estava parada, ele prosseguia; logo, estavam a cada dia mais distantes no caminho.
Ela não podia perdê-lo de vista!
Valquíria começou a refletir sobre a qualidade de seu coração.
V
Alguns dias depois, uma outra voluntária, Silmara, ficou viúva.
Valquíria, como todas as colegas, foi ao velório.
A viúva, calma, recebia a todos com solicitude, agradecendo a presença. Valquíria sentou-se e escutou, espantada, a colega contar, cm satisfação, sobre como conhecera o falecido e como haviam superado, juntos, diversos obstáculos e conquistado pequenas vitórias. A certa altura, a viúva levantou-se, pegou a mão do falecido e confessou, sorrindo:
- Você foi o amor de minha vida.
Valquíria retirou-se, a sufocar. Ela gostaria de estar lá, aos pés do caixão de Renato, tendo compartilhado com ele toda uma existência. O destino cruel lhe roubara esta possibilidade, ela passara pela vida de mãos vazias.
Dez dias depois, entrou na instituição uma mulher amargurada:
- Nunca fui feliz depois que enviuvei. Meu marido era minha alma gêmea. Há quinze anos estou viúva e nunca me recuperei desta tristeza. A senhora nem faz idéia!
Ora, era com Silmara que a mulher amargurada falava.
- Na verdade, eu também sou viúva. – respondeu Silmara, com seu eterno sorriso gentil.
- Oh! É mesmo? Há quanto tempo?
- Há dez dias, precisamente.
- Como? E a senhora está aí, trabalhando? Sorrindo? Como consegue?
- Eu tive um casamento feliz por quarenta anos. Só tenho a agradecer a meu esposo por esses anos felizes e a Deus que nos permitiu essa vida em comum.
Valquíria escutou, espantada, e manteve-se atenta à conversa. A mulher amargurada perguntou:
- Como a senhora consegue pensar assim? Eu só sofro e choro.
- Bem, eu tenho minha crença. Penso que Deus nos deu um corpo e uma alma, preciosos presentes, e nós temos obrigação de cuidar bem destes tesouros. A gente limpa o corpo todos os dias, escova os dentes, toma banho, para manter a saúde física. Da mesma forma temos de limpar a alma todos os dias, agradecendo as bênçãos recebidas e expulsando os pensamentos negativos. Manter a alegria é minha obrigação para comigo mesma e é a maneira de agradecer a Deus e a meu marido por todos os anos felizes que eles me concederam.
A mulher amargurada se desconcertou; parecia até envergonhada de seu sofrimento.
- A senhora é uma mulher iluminada. Acho que vim ao lugar certo. A senhora pode me ajudar?
Silmara conduzia a outra corredor adiante, até uma sala privativa, e Valquíria, debruçada sobre o balcão de atendimento, pensou pela primeira vez em sua vida sobre os tais pensamentos positivos, aquele blábláblá de Pollyana, da maneira como Silmara colocava, ganhavam força. Limpar a alma. Lavar a alma. Higiene mental. Estas palavras, começava a perceber Valquíria, eram, afinal, mais que expressões vazias.
Naquela tarde, Valquíria disse a Silmara e Angélica:
- Vocês duas são maravilhosas. Vocês são boas de verdade e é um privilégio trabalhar com vocês.
Depois de dizer isto, Valquíria sentiu-se muito bem, não porque as duas sorriram com simpatia para ela, e sim porque havia feito a coisa certa.
À noite, Valquíria passou pela casa dos tios e convidou-os a almoçarem com ela no domingo. Ela propôs-se a fazer a lasanha preferida do tio e contou para eles as boas ações que aconteciam na instituição.
- Eu tenho de agradecer, tia , pela sua insistência em que eu fizesse esse trabalho voluntário. Alias, tenho de agradecer ao tio e à tia porque cuidaram de mim e me educaram. Aquela criança, para quem Angélica arrumou pais adotivos, não teve a sorte de ter tios que cuidassem dela.
Valquíria lembrou-se de que o tio guardara para ela, sem tocar em um só centavo, e aplicadas com prudência, todas as pensões que mês a mês recebia em nome do pai. O tio cuidara da casas que lhe ficaram de herança, casa em que Valquíria morava agora, de forma que, aos dezoito anos, a moça se deparara com um patrimônio próprio. Os tios pagaram do próprio bolso todas as despesas que tiveram com ela, a pequenina de pouca conversa que se escondia pelos cantos, mal humorada, zangada porque queria porque queria os pais de volta.
O dia seguinte era sábado, e Valquíria resolveu imitar Silmara e limpar a alma.
Com este intuito. Valquíria foi ao cemitério e procurou o túmulo de Renato. Ela pretendia agradecer ao noivo pelos anos vividos em comum, e surpreendeu-se ao ouvir-se gritar:
- Como você pôde fazer isto comigo? Como você pôde morrer? Você tinha de ficar comigo! Casar! Ter filhos! Como você ousou ir embora sem mim?
Raiva! Era raiva que brotava dela! Durante todos esses anos, Valquíria sentia raiva de Renato e não sabia!
- Eu estou realmente brava com você! – e Valquíria chorou. Chorou pela menininha órfã e pela noiva que enviuvara às vésperas do casamento. Chorou pela mulher de coração de chumbo que não se importava com ninguém. Chorou, enfim, não por Renato, mas por ela mesma.
Valquíria, que nunca chorava. A sensação era nova para ela. Sentiu-se confortada em pensar que, àquela hora, o cemitério estava vazio e ninguém estava vendo que ela chorava. Foi-se uma caixa inteira de lenços antes que o choro parasse.
O corpo de Valquíria ficou mais leve. Seu coração já não pesava como chumbo nem mais sentia Renato sob sua pele. Ela conseguiu sorrir enquanto agradecia a ele os anos felizes de namoro e sentiu-se afortunada por ter encontrado amor em toda parte – Renato, os tios, o filho, e Alfredo, que ela desprezara.
Aceitando a morte, Valquíria fez as pazes com a vida.
É como os filósofos dizem, pensou Valquíria, já que a morte é inevitável, a gente deve se preocupar com a vida. Pois a gente não pode escolher a hora da morte, mas pode escolher como viver.
Naquela noite, Valquíria sonhou:
“Ela caminhava por entre ruínas de um templo grego, quando avistou um espírito que a olhava com atenção e ternura.
Valquíria estremeceu. Percebeu imediatamente a diferença entre este e os outros espíritos por quem passava indiferente dia após dia. Deu-se conta de algo que nunca observara antes: os espíritos não a enxergavam. Este, sim, e ela soube imediatamente que ele fora, em vida, um sacerdote do templo de Asclépio, o deus grego da medicina.
Valquíria penetrou no templo. Viu as águas terapêuticas nas quais os doentes eram banhados. Visitou as celas onde os enfermos dormiam. E o recinto onde, pela manhã, eram recebidos pelos sacerdotes. Se um doente dissesse que dormira, bem ou mal, continuava no templo; mas se relatasse um sonho ao sacerdote, era declarado curado e recebia alta.
Valquíria passara uma vida entre aquelas paredes, observando rituais e servindo aos sacerdotes, sem jamais compreender o que acontecia ali.
Agora, ela não caminhava mais entre ruínas, mas sim na construção original, como se recordasse... A lua cheia refletia-se nas águas sagradas e respirava-se o perfume de ervas e flores. Ela voltava-se para o grego de olhar bondoso e túnica branca, que, recostado a uma pilastra, sorria para ela. Valquíria perguntou:
-Por que é que você me vê e os outros não?
- Porque sou seu Mestre.”
O sonho terminou aí.
A tranqüilidade que pairava no templo, um sentimento gostoso, de profunda paz, quase alegria, persistiu depois que Valquíria acordou e ficou ruminando aquele sonho, tão nítido que parecia mais real que o mundo do cotidiano.
Os rituais de cura do templo de Asclépio sempre haviam intrigada Valquíria. Ela, que gostava de analisar sonhos, que lia curiosa sobre o assunto, não compreendia porque os sacerdotes mandavam os doentes embora após ouvir os relatos dos sonhos, sem nenhum comentário sobre eles. Sonhar significava estar curado. Aquilo a incomodara durante anos, mas agora ela compreendia.
O conteúdo do sonho é irrelevante.
O importante é acordar.
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