28 de mai. de 2010

crônica - AS ALMAS BUSCAM BEBER...

Contratei como faxineira uma mulher simples a quem dei uma instrução também bastante simples: “Capriche na limpeza da cozinha”.
Saí cedo pela manhã e retornei ao fim da tarde; ela, já de saída, explicou meio atrapalhadamente que voltaria no dia seguinte para terminar o serviço.
Entrei na cozinha e levei um baque - a mesma sujeira da manhã, e de quebra a minha área de serviço em completa bagunça. O banheiro não estava em melhor estado. Intrigada, entrei na biblioteca.
Que susto! Todos os livros estavam fora de seu lugar habitual. Sócrates estava filosofando sobre os prazeres da mesa e meu Vade Mécum descansava na mesinha do telefone.
A curiosidade foi a única explicação que me ocorreu para semelhante desatino.
Lembrei-me de uma antiga criada, de quem suspeitei, pensando que roubara alguns de meus livros. Eu tratava de arrumar um meio de recuperar os meus companheiros quando eles reapareceram na estante, exatamente nos mesmos lugares de antes. Tratara-se tão somente de um ‘empréstimo’ e a garota ficou toda feliz quando eu expliquei que ela podia perfeitamente ler o que bem entendesse depois de terminado o serviço enquanto aguardava o ônibus escolar.
Pela vida afora muita gente, simples ou não, já se deliciou aventurando-se pelas minhas estantes.
É inevitável o fascínio da palavra escrita. Já dizia Castro Alves:
“O livro caindo n’alma...”

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