Quem diria, eu, cidadão comum, promovido a agente secreto.
É assim que me sinto, cheio de senhas, algumas complexas, com frases secretas e números que equivalem a letras e mudam a cada acesso.
Diariamente executo elaborados rituais em complexas máquinas que interagem comigo através de painéis eletrônicos com cores e sons; preciso apresentar crachás, ser microfilmado, atravessar portas que automaticamente se travam enquanto sou vasculhado por células fotoelétricas. Tudo isto para fazer coisas banais como pagar o condomínio, ir ao dentista ou depositar um cheque em minha própria conta.
Se utilizar meu computador para ler um simples jornal, até para isso preciso de uma senha e de uma autorização.
E o que dizer da “lista telefônica” de cartões? De crédito, de bancos, de farmácias, de lojas, de convênios, vale alimentação, Smiles, Smartclub...ufa!
A vida antigamente, quero dizer, há dez anos atrás, era tão simples...
Hoje tenho um caderninho de bolso onde anoto todas estas senhas e códigos, pois são dezenas, periodicamente trocadas, num rompante de incompreensível sadismo. Haja memória!
Não corro perigo de perder minhas economias nem minha privacidade em caso de ter minha caderneta surrupiada, não! Pois todas as minhas senhas estão invertidas, trocadas e codificadas por um sistema secreto que inventei e não conto para ninguém nem vendo por dinheiro algum. Vai que alguém descobre que meu sistema de contra-espionagem é melhor que o deles! Aí, sim, é que vai ficar impossível pagar minha conta de luz.
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