28 de mai. de 2010

conto - A noite mágica

- Com quem você passará o Natal ?
“Com vocês !” - gritou a alma de Rita, dolorosamente surpresa com a constatação de que eles não contavam com a presença dela. Claro, pois Natal é festa de família.
Deu - se conta de que há meses vinha tratando Valter e Ivone como seus pais e Rosa como sua irmã.
E deu - se conta, também, subitamente, de algo mais grave. De que estava a procurar uma família, o carinho de pai e mãe que não tivera nem nunca teria e de que esta não era a primeira vez que isso acontecia.
“Estou a tornar - me intrusa em lar alheio”, percebeu Rita em um relance.
A moça levantou - se como que para admirar o presépio, ocultando assim as lágrimas que surgiram espontâneas.
“Que é isto ? Não posso ter pena de mim mesma!”. Rita, a garota criada em orfanato, filha de alcoólatras irrecuperáveis, que conseguira um lugar digno no mundo e vencera graças ao próprio esforço, Rita merecia admiração e estima, não pena.
- Preciso combinar com minha irmã, talvez ela queira vir para cá - respondeu, ao recobrar o auto - domínio - Eu é que não poderei ir ao Paraná neste momento.
Ali mesmo, porém, ela refazia seus planos natalinos. A quem enviar cartões, a quem telefonar na véspera, a quem visitar e... sim, por que não ? a quem convidar para a ceia. Lembrou - se de Roberto, que ficara para o plantão do dia 25, como ela sozinho e longe dos seus, e de Simone, de plantão à distância no dia 24, nas mesmas condições.
Rita conseguiu a adesão de meia dúzia de jovens desgarrados, que o trabalho retivera naquela selva de concreto que é São Paulo, e que, por iniciativa dela, organizaram uma festa adorável.
O fim de semana, ao invés de perdido em lamentações de auto piedade, foi um corre - corre de encomendas e preparativos.
Flores, enfeites, música, os alegres casos que Roberto lembrou - se de contar , as poesias que Simone declamou, as piadas e brincadeiras de todos e .... ah! sim! a troca de presentes do amigo secreto à meia - noite. Rita nunca passara um Natal farto e alegre com seus pais.
“Estou - me presenteando com o Natal que nunca tive.”
Ao brindar a Jesus Menino, ao borbulhar do champagne, Rita expressou um desejo no segredo de seu coração : uma família, a sua família, marido, filhos. Não os pais , que ela podia apenas perdoar e devia, para sua própria saúde mental, esquecer.
Lembrou - se da frase bíblica que até então lhe parecera hermética, misteriosa, ilógica : “Àquele que tem será dado, mas àquele que não tem, até o que tem lhe será tirado”.
Ela , que não tinha ( família), até o que tinha vinha perdendo por sua busca insensata por pais impossíveis. Mas àquele que tem ( algo para dar) , será dado...
À despedia, Roberto sugeriu que jantassem juntos dia 26.
- Eu ia passar esta noite solitário no meio de meus livros, mas você mudou os meus planos e fez esta festa maravilhosa. Você é uma destas pessoas...
- Sim ?
- Bonitas por dentro. Capazes de transformar o mundo para melhor.
Ela fitou os meigos olhos azuis do rapaz descobrindo neles um interesse novo.
Sorriram - se.
Ah! A noite mágica...

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