Meu pai era conhecido como 'o homem da maquininha' porque fazia contas em um soroban. Aprendera com amigos japoneses a usar este instrumento de cálculo e, em todas as eleições, convocavam-no para mesário. E por vários dias ele ficava trancafiado com outros escolhidos a apurar os resultados voto a voto, urna a urna. Homem simples, aqueles eram seus dias de glória _ ele saboreava o prestígio e a admiração dos companheiros por quem conseguira arrancar um segredo aos japoneses.
Em casa, ele tentava pacientemente ensinar-me o processo. Enquanto ele ditava as parcelas, eu rapidamente fazia os cálculos _ de cabeça. Meus dedos canhestros invariavelmente esbarravam em outras fileiras, desarranjando as dezenas antes de somadas as unidades e era preciso recomeçar. Papai propunha-se a zerar o instrumento, ao passo que eu, para economizar tempo, nele 'escrevia' o resultado da soma, já feita mentalmente. O curioso é que papai lamentava minha total incapacidade para as matemáticas e perguntava-se o que seria de mim, quando tivesse de somar longas listas de algarismos, como, por exemplo, verificando as despesas das compras mensais.
Se meu pai pudesse prever o futuro, teria poupado preocupações. A cada mês é mais fácil contabilizar as compras da casa. Os abarrotados carrinhos de supermercado, em tempos de real, transformaram-se paulatinamente em minguadas, leves sacolinhas.
E eu retiro apenas um dígito por dia para calcular o tempo que falta para o término do mandato de FHC.
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