O espanhol me encontrou na praia e puxou conversa e eu estiquei o assunto em parte porque ele era simpático e em parte para quebrar meu padrão de mulher séria educada por freiras que não conversa com desconhecidos.
Ele comportou-se como um macho padrão: exibiu-se alongando os ombros, abrindo o tórax e sorrindo; valorizou-se falando de seu dinheiro, de seu próprio negócio, de sua profissão, joalheiro, de sua família, era viúvo, de suas propriedades no plural, plural mesmo e em sua nacionalidade européia.
O espécime disponível casualmente comentou que se mudaria para o Brasil caso se apaixonasse por uma brasileira, confessou estar procurando uma companheira e então perguntou se sou casada.
Menti que era; a conversa voltou ao terreno neutro dos belos jardins de Santos e das areias ardentes de Guarujá e passei a tarde a psicoanalisar que acesso de loucura impediu-me de atirar-me aos braços do europeu rico e famoso e devorá-lo com saudável apetite tupiniquim. Auto-estima baixa ante um homem europeu, rico, bonito e....interessado em mim??? Afinal, minha idade não mais permite-me o luxo de desconfiar se a esmola parece grande demais.
Só se...
Meu inconsciente certamente tem algumas boas razões para tal ato aparentemente suicida. Talvez o longo rabicho que pendia da nuca do homem, semelhante ao daquele meu vizinho tão bonzinho e tão travesti, ou um olhar de esguelha, ou quem sabe o sotaque, que soava mais para o baiano que para o castelhano.
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