30 de mai. de 2010

crônica - Dias de Inverno

Julho passou, com seus dias claros e seu céu límpido fazendo a alegria das crianças e das donas de casa. Estas porque o pesadelo da roupa suja que não tem como ser lavada, pois recusa-se a secar quando a cidade se transforma numa nuvem úmida, e tudo nos armários fica cheirando a ‘cachorro molhado’, não aconteceu. E aquelas brincaram até fartar empinando pipas, correndo pela areia da praia e até tomando sorvetes - que estava quente e os pais não tinham porquê proibir.
Julho passou perfeito para férias, ensolarado, quente, lindo.
Inverno sem frio, no entanto, não tem graça nenhuma. Fiquei, frustrada, a esperar pela minha estação do ano preferida.
Inverno, afinal, tem seu jeito próprio, seus aromas, seus sabores: o caldo verde, o fumegante cozido português, o chocolate quente com marshmallow, o vinho quente, o fondue...
Pinhões tem gosto especial quando queimamos nossos dedos gelados no ingrato trabalho de descascá-los; as mãos ficam vermelhas e o estômago, aquecido.
Até mesmo as prosaicas pipocas são mais saborosas nas noites frias em que nos enrolamos em cobertores em volta de uma mesa, como escoteiros acantonados, para um joguinho de cartas.
Inverno é poder vestir-se com elegância; desfilar de blazers, casacões, túnicas e sofisticadas botas.
Inverno mesmo é quando dois cobertores não são suficientes e o companheiro pula quando lhe encostamos nossos pés - e a gente dorme soterrada entre montanhas de edredons, meias, gorros e cachecóis.
Inverno mesmo é quando a gente perde a hora porque a manhã é tão escura, o soninho tão bom e a chuva grossa nos embala como uma canção de ninar.
Inverno perfeito é quando a gente, semicongelada, espera um dia inteiro pelo namorado carinhoso que nos envolve em um abraço daqueles tão aconchegantes que nosso coração se aquece, o mundo torna-se agradável e a felicidade, possível.

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