28 de mai. de 2010

A arte é inútil?

publicado na revista Chapéu-de-sol - 2000


Ao término do seu belíssimo prefácio ao Retrato de Dorina Gray, Oscar Wilde declarou: ‘Toda arte é completamente inútil.’
Do ponto de vista prático, a tendência é responder sim. Come-se tanto em uma tigela de barro quanto em um prato de porcelana inglesa.
E o nosso humor, porém? Em que prato comeremos com mais prazer?
É esta a diferença entre o modo de viver de Esparta e Atenas. Cidades gregas poderosas, a diferença principal entre as duas culturas era o valor que atribuíam à arte.
Os espartanos eram rígidos e agressivos. Os atenienses alegres, flexíveis e criativos. Atenas legou-nos o teatro, a escultura, a filosofia, enfim, a semente da civilização ocidental.
Inútil, a arte?
A poesia de Castro Alves foi aríete para abrir senzalas.
A obra de Nietzche alavancou o terceiro Reich.
A Marselhesa derrubou a Bastilha.
Com razão os ditadores expulsam músicos, escritores e artistas censuram suas obras e dificultam as manifestações intelectuais.
A arte fala à alma, comove multidões.
Palavras, sons, imagens... recursos poderosos.
Sou dessas pessoas incapazes de viver sem o belo. Necessito de Beleza tanto quanto de ar, de água, de comida. Sem a Arte, fico infeliz.
Do ponto de vista da restrita sobrevivência, concordo: a arte é completamente inútil.
Quem, porém, deseja sobreviver?
Queremos, sim, viver, e viver plenamente.
A arte é vida, é a marca da civilização.

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