Äna äm bidros arabi, habiba.
Creio mesmo ser eu a única garota do grupo que realmente prestava atenção às aulas de árabe e à cultura. As outras limitavam-se ao habib (querido) e ocupavam o tempo a lançar olhares lânguidos aos rapazes, imaginando-se sedutoras odaliscas em românticas tendas à sombra de românticas palmeiras em românticos oásis.
Jamais namorei moço algum da colônia libanesa. Acredito que eles preferiam as moças de cabelos longos e idéias curtas. Eu usava cabelos curtos e tinha o curioso hábito de raciocinar.
Uma amiga casou-se com um árabe, aos dezesseis anos. Com sorrisos, ele a convenceu a usar vestidos apenas, porque assim ficava mais bonita. Para que continuar os estudos, se ela seria mais útil aos filhos em casa? Sempre que combinávamos algo com a turma, ele a raptava para um programa mais interessante – a dois, naturalmente.
Ela estava muito feliz em seu primeiro ano de casada. Recebia regularmente flores, jóias e bombons. Tinha à disposição cozinheira e arrumadeira; semanalmente iam à sua casa a manicure, a cabeleireira e a esteticista. As compras eram solicitadas por telefone e entregues em domicílio; nada daquela chatice de ir ao açougue, à feira, ao supermercado. Nem sei se ela soube que deixamos de visitá-la por proibição expressa do marido.
Soubemos por uma prima que ela embarcou entusiasmada para o oriente, prometendo voltar com dúzias de tapetes e especializar-se em culinária árabe. Ela nem sabia que a Pérsia hoje chama-se Irã e ir-se embora para Pasárgada não é lá tão agradável quanto no tempo do grande rei Ciro. Ela rápido descobriu que os tapetes não são mágicos, a fumaça não sai de lâmpadas encantadas e o único gênio que veio em seu socorro foi seu talento de Sheerazade, com o qual ela adormeceu o marido pelo tempo suficiente para fugir até a embaixada.
Escapei de destino semelhante ao conhecer um magnífico, rico, culto e charmoso médico inglês em partida para o Iraque, onde por dois anos iria pesquisar um raro tipo de anemia. Sua esposa deveria conformar-se em permanecer em casa a maior parte do tempo, sair apenas envolta em véus e, é claro, era imprescindível não temer os bombardeios. Foi assim que descobri que uma solteirona pode, sim, dizer não ao único pedido de casamento recebido em 35 anos.
Descobri também que sou discriminadora. Discriminação, segundo o Aurélio, é ‘perceber as diferenças’. Permito-me o direito de perceber as diferenças e escolho – faço mesmo a mais absoluta questão de – ficar com meus iguais.
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