30 de mai. de 2010

conto - Distração

Era um sujeito distraído. A gente parava bem em frente ao fusca amarelo dele e esperava em vão enquanto ele, chave na mão, olhava para todos os lados, indeciso.
- Não vamos embora?
- Claro, assim que eu localizar o carro. Sei que estacionei em algum lugar por aqui...
Entrava no carro e que é feito da chave? Deixara-a do lado de fora.
Quantas vezes não voltava do trabalho a pé porque esquecera-se de que saíra de carro?
De nada adiantava, para ele, anotar os compromissos do dia em uma agenda, pois ele não se lembrava de consultá-la; isto é, caso ele se lembrasse aonde a colocara.
Viajei com ele uma única vez, para nunca mais. Hospedamo-nos na primeira noite em um hotel à beira da estrada; na manhã seguinte ele pôs-se a revistar os bolsos e a bagagem - esquecera dinheiro, cartões e talões de cheque. Se não fosse o amigo aqui...
O que aconteceu na imobiliária, no entanto, foi demais. Eu o acompanhei em suas andanças à procura de um imóvel até encontrarmos um que o interessou. Aí o corretor, todo solícito, propôs-se a preencher a ficha cadastral:
- Nome?
- H*** W***
- Profissão?
- Médico.
- Endereço?
Nisto, ele vira-se para mim:
- Alfredo, onde é que eu moro?
Sorri. Que brincadeira mais fora de hora!
- Sério, Alfredo, não sei.
- Você quer dizer que se esqueceu do próprio endereço?
- Não sei mesmo. Não prestei atenção ao nome da rua.
- Ao menos do número você lembra, não?
- Sabe que também não reparei no número?
Verdade é que ele mudara-se recentemente.
- Mudou-se ontem?
- Há dois meses.
Seus olhos pediam-me socorro, porém eu estava sufocado até as lágrimas pelo mais inconveniente acesso de riso.
O corretor ainda tentou mostrar-se compreensivo:
- São Paulo confunde um pouco os que vêm de fora.
- Não é meu caso, moro na mesma quadra desde que nasci, só que mudei para a rua de trás.
Aí o corretor ficou com uma expressão muito esquisita e empurrou-nos firmemente porta afora.

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