As pessoas comuns, no máximo, se relacionam pelo olhar e pelo tom de voz. Já os músicos têm um misterioso jeito próprio de se comunicar entre eles. É quase uma telepatia, uma mensagem, que apenas se adivinha, pensamentos se materializam no espaço, palpáveis, autônomos. Até mesmo sem se olhar, no palco, os músicos se comunicam tão perfeitamente em cada nota se encaixa, no ritmo, na harmonia, no timbre exato. E as emoções fluem, e cada qual pertence ao conjunto e não se sabe mais quem lidera e quem é liderado, a platéia hipnotizada apenas acompanha, capturada pela magia dos acordes.
Foi assim naquele jantar de aniversário.
As mocinhas cantaram, dedilharam, dançaram, animaram a festa. Seus risos e gestos infantis tinham, no entanto, a maturidade dos profissionais afeitos a horas de disciplinado treino.
A alegria permanecera após a saída dos convidados, na vivacidade dos passos e no brilho ardente do olhar de Verônica.
Até que, lá pelas tantas, a avó chupou os lábios e baixou a voz, a olhar pela janela:
- Essa aí não é companhia para você. Não quero mais essa garota esquisita em minha casa.
Verônica escondeu o rosto atrás da porta da geladeira, a acomodar com cuidado excessivo os frascos das sobras do almoço. Quando falou, os olhas estavam opacos e a voz era macia:
- Ela tocou tantas músicas do seu tempo, vovó! Pensei que a senhora fosse gostar. Minha amiga é uma pianista de talento, segunda violinista da Sinfônica Municipal. O que há de errado com a música dela?
- Nada há de errado com a música dela. Toca bem, a moça. Apenas...é uma mulher estranha. Ela não serve e fim.
Verônica não prolongou o assunto. Não convidou mais a amiga. Não citou mais o seu nome na presença da família.
Ia, contudo, à casa dela duas tardes por semana. Ficavam na sala, esparramadas nas almofadas pelo chão, as cortinas fechadas, a sussurrar na penumbra.
Aquilo durou até a tarde em que a outra levou uma mecha dos cabelos de Verônica aos lábios e a beijou com ternura.
Verônica estremeceu, tocou a face da amiga com a palma da mão, lembrou-se da avó e afastou-se.
A tensão aos poucos dissolveu-se e, naquele jeito misterioso dos músicos, entenderam-se.
No silêncio, o convite implícito, o assunto que nenhuma das duas ousou abordar com palavras.
Ora, as palavras! Quem precisa delas, afinal?
Uma descerrou as cortinas, outra voltou ao piano.
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