“Girafa e elefante então existem de verdade? E eu pensava que eram bichos da terra do faz-de-conta” – confessou meu sobrinho, quando o levei ao zoológico pela primeira vez.
A verdade é que a tecnologia sofisticada de nossas cidades massificadas está de tal forma afastando o ser humano da natureza que não é de estranhar que hajam crianças que pensem que frango é um pacotinho que se compra no supermercado; pois até mesmo os desenhos infantis estão substituindo os animais por máquinas e alienígenas.
Achei que seria interessante levar meu sobrinho a um local “selvagem” - meu sítio, encravado na zona rural, onde ainda se pode olhar o céu e ver a Via Láctea, ouvindo sons absolutamente estranhos para ouvidos urbanos: grilos, cobras, pererecas e corujas.
Substituir a Internet pela pescaria com certeza devolveria as cores ao seu rosto pálido.
E lá fomos nós.
Chegamos sábado cedinho e pelo meio da tarde dei-me conta de que esquecera de trazer sal.
“Também não tem chocolate, tia. E a gente podia comprar umas lingüiças. E será que só isso de pão vai durar até segunda-feira?” – palpitou o garoto.
Comecei a lembrar-me de que a fome desesperada de um adolescente é muito, muito maior que o apetite discreto de uma senhora de meia idade. O jeito era completar a despensa com umas comprinhas de última hora. Assim, fomos até a cidade.
Anoiteceu cedo e a escuridão surpreendeu-nos no caminho.
O rapazinho a meu lado estava inquieto. Sem dúvida a noite plena com seus ruídos naturais parecia-lhe ameaçadora. O farol do carro iluminava apenas alguns metros à nossa frente.
“Não há perigo algum, conheço bem a estrada” – tranqüilizei-o.
“Seu celular caiu no chão”
“Não tenho celular”
“Há um celular neste carro e alguma coisa está empurrando ele para o meu pé.”
Ante o pânico em sua voz, freei.
Ele apontou-me a luz verdinha que piscava, fria, em ritmo lento, a intervalos regulares.
“Tem alguém escondido neste carro! Alguém que deixou cair o seu celular! Algum bandido!” – ele quase gritava – “Tia, faça alguma coisa!”
Eu fiz: abri a porta e libertei o vaga-lume.
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