30 de mai. de 2010

conto - Overdose

- Vou disputar o campeonato de surf na Austrália.
Fulminei aquele jovem deus loiro, segurando a indignação por trás das feições de pedra. Pois aquele ingrato ousava estraçalhar os meus sonhos para o seu futuro!
Nem eu percebi, nem ele, que naquele instante o vínculo entre nós quebrou-se.
.....

Eu realizava meus afazeres cotidianos como sempre, e ele realizava os seus. Eu, no entanto, perdera o prazer de viver.
Ele acordava cedo, para treinar mais, e passou a tomar seu café da manhã sozinho. Começou a almoçar com a equipe, para manter a dieta, e o mesmo acontecia com o jantar.
Eu colocava só dois pratos na mesa, mesmo que ele estivesse em casa, e o pai não questionava a omissão. A coleção de troféus do filho não o emocionava, tampouco. Nós dois preferiríamos um diploma sem nenhuma distinção, mas diploma. Não troféus, nem fama, glória ou honrarias.
Ele nos contava sobre suas buscas por patrocínio, nós ouvíamos quietos. Comentávamos sobre o vestibular sem obter resposta.
Adoeci. Minhas dores reumáticas travaram dolorosamente meus movimentos, e ele passou a cuidar da lavagem das próprias roupas e da limpeza do quarto, para poupar-me.
Os remédios davam-me sono, eu me recolhia cedo, e assim, à noite, não mais nos encontrávamos. Fazemos coisas assim com as pessoas que amamos, e, quase sem darmos por isso, nós as expulsamos de nosso coração.
Ele fazia as refeições fora, saía e entrava quando eu estava a dormir. Ele e o pai discutiam por dinheiro com bastante freqüência e quando ele comunicou, todo feliz, que conseguira a passagem para a Austrália, o bate-boca extrapolou. Gritos. Desaforos. Um tapa na cara.
Na manhã seguinte ele ainda estava em casa quando acordei. De olhos baixos, aguardava-me. Sorri.
- Não foi treinar hoje, filho?
Ele ergueu-se. Uma faixa colorida prendia-lhe a franja. Um suspiro expandiu-lhe o tórax robusto. Por um instante eu o admirei, meu jovem Balder, suas longas tranças douradas balançando à frente dos ombros como um desafio. Ele tocou-me gentilmente o rosto:
- Vou-me embora, mãe.
Só então dei-me conta da mochila apoiada à porta. Dirigi-me à cozinha e comecei a cortar meu pão.
- Um beijo de despedida, mãe. Deseje-me sorte.
Ele aproximou-se, seu meigo olhar brilhando como o de um garotinho. Eu dei-lhe as costas.
- Vocês estão-me expulsando de casa. Eu não quero ir embora dessa maneira, mãe.
- Ora, filho! “Você me expulsou!”, “Você me forçou a aceitar este emprego!”, “Você me induziu a isto ou àquilo!”. Fácil, não é, jogar a culpa nos outros. Por favor, cresça! Encare a responsabilidade pelo que você faz! Assuma a sua vida!
- É o que pretendo fazer, mãe.
Não ouvi a porta bater, pois ele saiu discretamente de nossas vidas, como quem não quisesse mesmo incomodar.
Por muitas semanas eu o mantive longe de minha mente. Ocupada com dez mil tarefas, sua ausência era-me indiferente. Para o pai, o mesmo acontecia. Esquecêramos o filho que tanto nos desiludira.
Ontem chegou o telegrama.
Eu não quis ver o corpo. Não fui ao velório. Nem ao enterro.
De olhos secos, persisto em minha rotina de todos os dias. Afinal, eu não tive culpa. Eu não poderia ter feito nada para que as coisas acontecessem de maneira diferente, não é mesmo?
Confesso, porém, que há uma diferença: para onde quer que eu me volte, o jovem deus loiro olha-me incansavelmente com muita ternura a exigir-me o beijo de despedida que lhe neguei.


Publicado em 1999 no livro:
CONTOS DE TERROR
(porque possíveis...)

Não adianta trancar as portas e as janelas. O inimigo já está dentro de casa. Neste momento mesmo, pode estar à espreita....

“A desgraça é variada. O infotúnio sobre a terra é multiforme.” – Edgar Allan Pöe.

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