Suicídio. Sete anos de idade.
A garota jogara - se em frente ao caminhão, na avenida de alta velocidade. O pai atirara - se em seguida, não suficientemente rápido. O motorista desviara e freara, sem conseguir atenuar o impacto. Vários carros se arrebentaram atrás e havia um saldo de oito feridos.
No Pronto Socorro foi confirmado o óbito da menina. E o estupro.
A pediatra observou aquele pai transtornado e deu - lhe a notícia seca, direta, sem compaixão.
O homem olhou para ela sem medo, sem susto. Apenas a imensa dor, a incredulidade.
Ela então continuou:
- Aconteceu hoje, ou ontem. É recente. Na maioria dos casos é dentro de casa que acontece, com um homem que a criança conhece bem e em quem confia: um tio, um avô, com grande freqüência o próprio pai.
Ela o observava, implacável. De novo não houve medo, nem susto nos olhos francos, apenas dor.
- Por que?
- Quem foi? O senhor tem outra filha, pense nela. Quem foi o homem que esteve em sua casa ontem?
- Não é possível.
- Fale.
- A menina só saía de casa para ir à escola. Não tinha o costume de brincar na rua. Não ficava sozinha nunca.
- Quem esteve com ela?
- Uma criança educada com tanto cuidado... com todo o carinho...
E, súbito, a raiva.
- Eu mato esse desgraçado!
E o pranto.
A médica pediu para que entrasse a mãe. Nesses casos sempre prensava primeiro o pai. A sós.
- Quem esteve em casa hoje, doutora? Meu pai, com minha mãe, ficamos todos juntos na sala. E ontem o meu cunhado ficou com a Daniela, à tarde, quando fui ao dentista. Eu sempre a levo comigo, mas ela estava jogando vídeogame com o tio e ele disse que não tinha nada para fazer e ficaria com ela até eu voltar. Não notei nada de estranho quando cheguei.
- Não pode ter sido ele. Não pode. Não o meu irmão. Tem de ter sido outra pessoa.
- Alguém mais?
- Meu primo. Não, ele nem entrou, passou só para devolver um livro.
- Eu quero conversar com o seu cunhado. Vamos chamá - lo aqui e dizer apenas que a menina foi atropelada. Se foi ele, não queremos que fuja.
- Então é melhor que ele nem veja a gente, doutora. Mas não pode ser ele. Ele também é pai, tem uma filhinha de vinte dias. É a mais gentil das criaturas. Sempre tão carinhoso com as sobrinhas.
- Carinhoso. E acaba de ser pai.
- Ai, se foi ele... eu o mato.
- Nós não temos certeza de nada, por enquanto.
Meia hora mais tarde, apresentou - se um homem de uns trinta anos, visivelmente nervoso:
- A minha sobrinha... com licença, disseram - me que a doutora é quem atendeu a minha sobrinha. Eu não vi meu irmão lá fora. Aonde está ela?
- Boa tarde. Sente - se. Os pais estão com ela, o estado dela é muito grave.
- O que aconteceu?
- Atropelamento.
O homem parecia preocupado, queria ver a criança.
- Não pode. Só os pais. Mas eu gostaria de conversar com o senhor. A menina gosta muito do senhor, não é?
- Muito mesmo. Ela até dizia que ia crescer para casar comigo, sabe? Ficou muito chateada quando eu me casei.
- E o senhor alimenta estas fantasias?
- Ah, bem, eu sempre brincava com ela. Era a minha segunda namorada. Eu sempre trazia um chocolate, um doce, pegava no colo, levava para passear.
- Uma menina bonita.
- Linda.
- Esperta?
- Nossa! Muito esperta. Inteligente mesmo. Precoce, sabe?
- Como assim, precoce?
- Não parece uma criança, às vezes, sabe? Passa um batonzinho, gosta de um perfume, de uma roupinha transada, de um brinco...
- Vaidosa.
- Uma mulherzinha. Sentava no meu colo e dizia assim: “Adivinha o meu perfume”, toda dengosa. E quando eu vou embora ela me beija, me abraça e diz: “Você casou com outra mas continua sendo o meu namorado, viu?”
- E era?
- O que?
- Namorado dela.
- Claro.
- Ela me contou que ficou com ela, ontem.
- Ah... fiquei. A mãe dela foi ao dentista e nós ficamos jogando vídeogame.
- Ela me contou o que fizeram juntos.
- Ah... contou, é?
- Foi a primeira vez?
- Como?
- Foi a primeira vez.
- A doutora compreende, não é?
- O que?
- Ela queria muito.
- Ela queria?
- Ela gosta muito de mim. Ela é... precoce, é como eu lhe disse, ela senta no meu colo e se perfuma toda para mim e vive se declarando, que me ama e coisas assim.
- Toda sobrinha gosta do tio.
- Mas com ela é diferente. Ela parece uma criança, mas ela me vê como uma mulher vê um homem, compreende? Se houvesse uma oportunidade, bem, ela se entregaria para mim como mulher, entende? Ela se derrete toda para o meu lado, me provoca a toda hora com aqueles shortinhos, aquelas mini blusinhas e todo aquele dengo...
- E ontem?
- Ontem nós ficamos sozinhos e ela aproveitou, né? Apareceu a oportunidade.
- Você a seduziu.
- Que é isso, doutora, ela é que me seduziu! Doutora, pelo amor de Deus, não conta nada para a minha mulher, que meu casamento acaba.
- Como foi?
- Ela foi logo se abraçando em mim e cochichando no meu ouvido: “Vem no meu quarto ver o urso novo de pelúcia que eu ganhei”. Ela é uma menininha mas já tem estas artimanhas de mulher vivida, inventando pretextos.
- Será que houve outras garotinhas antes dela?
- Sabe, doutora, houve algumas, sim, sabe , as garotinhas me adoram! Elas se apegam comigo com abelhas no mel. A Dani é um chamego só. Um xodozinho.
E ele pos - se a narrar entusiasmado todos os detalhes de sua façanha erótica.
Publicado em 1999 no livro:
CONTOS DE TERROR
(porque possíveis...)
Não adianta trancar as portas e as janelas. O inimigo já está dentro de casa. Neste momento mesmo, pode estar à espreita....
“A desgraça é variada. O infotúnio sobre a terra é multiforme.” – Edgar Allan Pöe.
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