30 de mai. de 2010

conto - Marca de lágrimas

Márcia estava com os pais na piscina, saboreando o churrasco familiar dos domingos. O clima era de bom humor e alegria.
Piscando - lhe seus travessos olhos azuis, papai estendeu para ela um copo de cuba libre.
_Você está feliz, querida ?
Ela acabara de ganhar uma viagem aos States como presente de aniversário.
_ Muito, pai ! Você é o melhor pai do mundo !
Como poderia ela não estar feliz ?
Seria uma manhã de domingo perfeita, não fossem algumas coisinhas que intrigavam Márcia.
Insignificâncias.
O vestido vermelho, por exemplo, que ela não encontrara em lugar algum. Não fora para a lavanderia. Simplesmente desaparecera.
O tabuleiro de xadrez em seu quarto, quando ela tinha certeza de te - lo guardado no escritório.
Aquele filme a que Sofia insistia em afirmar que as duas haviam assistido juntas e o desconfortável 3 de matemática. O professor chamara Márcia à lousa e pedira a ela que resolvesse alguns problemas, o que ela fizera corretamente como de hábito, sem errar nenhum, excelente aluna que era. Então ele lhe perguntou o que lhe acontecera na prova, quando ela não tinha a menor lembrança de haver feito prova.
Mamãe já marcara uma consulta médica para Márcia na terça - feira e dissera a ela que não desse importância demasiada a esses esquecimentos.
Essas falhas de memória, tão bizarras, nublavam o horizonte quase perfeitamente feliz daquele domingo.
- Hoje é aniversário de minha amiga Rute. Vou mais cedo, pois ela quer que eu a ajude na decoração do salão - disse mamãe.
- As festas de Rute são deliciosas. Se eu pudesse, mamãe, iria escondidinha em sua bolsa, como uma formiguinha, para avançar nos doces.
- Você morreria de tédio, isto sim. Festa boa para você foi a de sábado passado.
- Ah, se foi !
Os quinze anos de Sofia. Márcia dançara até as quatro da madrugada. ‘ Papai enlaçou - lhe a cintura e fe - la sentar - se em seu colo :
- Márcia tornou - se uma bela mulher. Eu me orgulho dela.
- Uma moça inteligente e de bom coração, isto é o que importa - completou mamãe - Márcia é uma filha que só nos traz alegrias.
- Parem com isso, seus corujas ! Vocês é que são pais maravilhosos.
Mais tarde, quando mamãe saiu para a casa da amiga, papai disse à Márcia :
- Vá tomar um banho, coloque aquele perfume que eu lhe dei e vista aquele vestido amarelo que a deixa tão bonita. Eu vou preparar um suco de frutas para tomarmos depois. O que você prefere : caju ou maracujá ?
- Maracujá, papai.
Ela o beijou em ambas as faces e o abraçou bem apertado :
- Muito, muito obrigada pela viagem, papai.
- Você a merece, meu bem.
Márcia subiu para o quarto e abriu seu diário. Melhor seria dizer semanário, já que ela costumava escrever durante as tardes de domingo. Na semana anterior nem escrevera, pois, cansada do baile, dormira a tarde inteira. Ao menos, ela assim pensava.
A última folha escrita estava amassada e rasgada. Marcas redondas como pingos borravam aqui e acolá garranchos medonhos esparramados pela página. Como se alguém houvesse chorado. Márcia não se lembrava de haver chorado. Nem se lembrava de haver anotado coisa alguma, nem sobre a linda festa de Sofia. Chegara tão cansada ...
Leu :
“Aconteceu uma coisa horrível. Me ajuda, Deus. “
Apenas isso.
Sua letra. Se ela não trouxesse o diário sempre trancado e a chave escondida em um local secreto, até poderia pensar que alguém queria fazer alguma brincadeira de mau gosto com ela, imitando sua letra. Ora, que bobagem, além do pai , da mãe e dela, não havia ninguém mais na casa.
“Aconteceu uma coisa horrível.”
Que poderia ter acontecido ? Sua amiga Sofia não parecia saber de nada. Nem seus pais.
Havia o três de matemática.
Todos aqueles lapsos.
Ela se esquecera da prova. Acontecera alguma coisa horrível e ela se esquecera, também.
Com certeza tinha algo a ver com o vestido vermelho, pois ela o usara no domingo e ele desaparecera.
Uma coisa horrível.
O que poderia ser ?
- “ Vou chegando, pros braços de amor da mulher que está a me esperar ...”
Não era o tipo de música que papai habitualmente cantava e a moça sentiu - se vagamente inquieta ao ouvi - lo subir as escadas.
- Vamos rápido, querida, você já está pronta ?
Então ela lembrou - se, quando viu o homem entrar em seu quarto, nu.

Publicado em 1999 no livro:
CONTOS DE TERROR
(porque possíveis...)

Não adianta trancar as portas e as janelas. O inimigo já está dentro de casa. Neste momento mesmo, pode estar à espreita....

“A desgraça é variada. O infotúnio sobre a terra é multiforme.” – Edgar Allan Pöe.

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