Uma mancha verde esmeralda, límpida, cristalina, derramava - se delgada no poente. O céu restante todo azul imaculado, o ar parado, abafado, sufocante da estiagem brava.
Fantástico. Fantasmagórico. Fátima nunca vira um céu como aquele. Lembrou - se, sem saber porquê, do avô a contar histórias ao pé do fogo, tendo - a pequenina, a cavaleiro sobre os joelhos.
Sentiu o coração apertado, e embora fosse dia de pagamento, ela não parou na quitanda, nem na padaria.
Para casa! Uma sensação de urgência a impelia a correr, a correr...enquanto outros imobilizavam - se, nariz para o alto, a admirar o curioso fenômeno.
Súbito o céu fez - se negro e a tempestade surgiu do nada, furiosa e bela, a estrugir, a ribombar, a crepitar elétrica em formidáveis estrondos e clarões diluvianos.
Fátima teve o justo tempo de gritar pelas filhas, que saíram do quarto onde estavam a estudar, para abraçá - la.
Um tremor de rachar pedras abalou a casa e lá estavam as três, completamente encharcadas, expostas à fúria incontrolável dos elementos, a olhar os campos onde antes houvera uma parede.
Telhas , tijolos, camas, armários - tudo o vento impiedoso carregara em sua veloz, alucinada, devastadora, louca trajetória.
Em frente houvera outra casa, uma porteira, árvores... Nada, somente um rastro nu e sinuoso.
Tudo cessou de repente.
O céu cintilava azul e claro, o ar retomava a imobilidade de antes, o silêncio até doía .
E a noite surgia de manso no horizonte, pincelando com toques escuros o contorno da serra.
- E agora, mãe, como é que vai ser ?
Fátima lembrou - se que todas as suas economias, mais o salário do mês, estavam na gaveta da cômoda...
Dois pares de confiantes olhos infantis a encaravam. Uma luz alegre e serena transpareceu em seu semblante, como acontecera apenas uma vez, naquela noite de Natal em que ganhara sua única boneca, tesouro precioso que conservara com carinho e que a selvageria dos ventos acabara por lhe arrebatar.
A sorrir, ela catou com força as mãozinhas corajosas e pos - se a correr, a correr, resolutamente, em direção à noite, em direção ao infinito.
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