31 de mai. de 2010

conto - Momentos preciosos

Os imponentes paredões das Montanhas Caribu espelhavam-se nas águas do Pacífico. À direita, no horizonte, os picos eternamente nevados das Whistlers pareciam flutuar acima das nuvens. À esquerda, a verdejante Grouse Mountain era um convite a ser trilhado. Do Parque Stanley ao Hotel Canadá Place, as centenas de embarcações alinhadas nas marinas que contornam a baía de Vancouver brilhavam em matizes amarelos, vermelhos, azuis, brancos...
Nesse perfeito ensolarado dia de verão, as vinte horas de claridade penetram e energizam alegremente as almas.
A brisa trouxe as vozes das filhas e Joana foi forçada a fechar os olhos da imaginação e a retornar bruscamente no cotidiano real, no qual as montanhazinhas da Serra do Mar desmaiam azuis, ladeando a baía de Santos.
Aos poucos, Joana adquiria prática em mesclar os dois mundos. Em alguns segundos de conversa já conseguia falar em português pensando em inglês, mirar sem ver o Atlântico enquanto voltava a aquecer-se ao sol do hemisfério norte, sorrindo. E já outra visão, agora a das Rochosas, com seus paredões escarpados, róseos à luz do sol nascente, estendia-se a 180° em seu horizonte imaginário.
Essas montanhas, com seu impressionante silêncio e sua majestosa presença, exercem uma inevitável e profunda influência sobre as pessoas. Uma vez tocado por elas, a transformação é inevitável.
Joana tivera o cuidado de cercar-se de lembranças. Em seu pulso, o relógio canadense mostrava as horas por entre folhas de plátano. Ao tocar o colo, uma jóia de jade lhe transmitia a pulsação de um solo distante.
Aos domingos, Joana trazia para seu lar os aromas da culinária canadense: salmão, cookies, muffins e brownies. Em seu fogão, chiavam as fofas panquecas que ela empilhava em camadas e regava generosamente com xarope de bordo.
No calendário de parede, ela revia os alces, as renas, as belugas e os ursos grizzli, enquanto saboreava seu chá na típica caneca com tampa, decorada com o figura de um corvo.
Objetos espalhavam pela casa os desenhos dos povos das primeiras nações da costa oeste do Pacífico. Da agenda de telefone ao cobertor, uma profusão de estilizados salmões, baleias, ursos e águias.
Joana colocava seu boné de baseball e passeava por esses tesouros como quem olha para um tesouro invisível para os outros.
A filha mais nova, a mais sensível, comentava como a mãe voltara feliz das prolongadas férias:
- Mamãe está feliz, feliz de verdade!
- Sim, mas.... – e a mais velha, prática, não conseguia colocar em palavras o que não compreendia.
Joana sorria; era o sorriso de uma estranha.
Aparentemente, ela estava ali, no entanto a luz em seu olhar refletia o brilho das geleiras nórdicas.
Joana não mais lia os jornais nem assitia a TV local. Acompanhava o noticiário de Quebec pela TV5 e sua estante povoava-se de livros e músicas canadenses.
Ao ligar o computador, suas filhas encontravam como plano de fundo o Lago Louise ou a Rio Kapilano, sob a famosa ponte.
Sobre a cama, um capricho de menina: um alce de pelúcia tão macia como um carinho de namorado.
O quarto, aliás, fora redecorado e nele ela passava agora boa parte do dia, entre seus novos ornamentos. Nas paredes, quadros tornavam presentes as estátuas Haida, os totens, o Monte Robson. Quase se tiritava de frio diante do pôster da eternamente gelada Icefield Glacier.
Ao viajar ao Canadá e conhecer as Montanhas Rochosas, Joana realizara um sonho há muito acalentado. Que momentos felizes!
Muito já se escreveu sobre o impacto dos momentos felizes na vida das pessoas.
Katherine Mansfield impressionou-me com a estória de uma mulher que se julgava perfeitamente feliz, desmorando em um segundo ao surpreender o marido beijando sua amiga – colocara sua felicidade na dependência de terceiros.
Monteiro Lobato, cuja crítica me remetera à autora da Nova Zelândia, escreve, por sua vez, o magistral ‘Negrinha’. Neste conto, uma criança órfã e judiada tem permissão para brincar com meninas tão lindas que pareciam anjos, e, quando as férias acabam e sua rotina retorna, o inevitável, segundo Lobato, acontece. Negrinha vai para o céu, pois , tendo conhecido de perto a vida dos anjos, não lhe era mais suportável viver nesta terra.
Já Dostoievski termina suas Noites Brancas com o personagem, ao ver partir a mulher amada, a perguntar-se se um momento de felicidade não seria o bastante para iluminar uma vida.
Entre a passividade agradecida de Dostoievski e o radical desespero de Lobato, tantas e tão estranhas reações são possíveis à felicidade!
Como afirma Clarice Lispector, viver é perigoso.
Divagações filosóficas e literárias à parte, o fato é que eu me perguntava se Joana enlouqueceria ao mergulhar em suas memórias felizes com tal persistência.
Ela não trouxera nenhuma estória para contar. Nenhum romance. Nenhum amigo em especial. Nada além da constatação de que existem no mundo pessoas com vidas agradáveis.
Os canadenses, dizia Joana, com uma pitada de ironia, são um povo realmente chato, pois nada fazem além de nascer, crescer, viver e morrer. No intervalo entre nascimento e morte, eles esquiam, remam, passeiam, ouvem música, cantam, dançam, lêem, fazem amigos, namoram, casam, tem filhos, estudam e trabalham do jeito que gostam, discretamente, respeitando os limites alheios. Uma vida absolutamente insípida, tediosa, monótona e previsível.
E o suspiro satisfeito que acompanhava as palavras ‘monótona’ e ‘tediosa’ era pura provocação. E ela completava, para me cutucar:
- Você sabe, a felicidade não dá boas estórias. Os escritores gostam das tragédias.
Joana foi vivendo com os pés no Brasil e o coração nas Rochosas durante meses e meses, até o dia em que, passaportes em punho, contrato de trabalho no bolso e filharada a tiracolo, como uma águia em extinção, voou.

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