Caminhando a esmo pelas ruas, encontrei - me às duas horas da manhã em frente aos jardins da praia. Atravessei as aléias floridas e dirigi - me para a faixa de areia, buscando ouvir, na voz do mar, a mensagem dos deuses dentro de mim. Ou, dito de uma maneira bem menos poética, a voz da consciência a atormentar - me.
Tudo o que acontece conosco é fruto de nossas próprias ações, conseqüência de nossos próprios atos. Que ironia que essa fosse a frase dita por mim para as minhas duas mulheres, a fim de convencê - las a enxergar a vida pela minha ótica particular. E ambas me deixaram.
Cá estou eu, sem casa, na rua...
A idéia foi do Fernando. Quando a Teca foi à polícia registrar queixa contra mim ( portei - me como um tolo, perdi a cabeça e bati nela ) e ficou firme na decisão de divorciar - se, Fernando encasquetou - me na cabeça a idéia de procurar Regina.
Regina fora minha grande paixão de adolescente. E também a grande paixão do Fernando, infelizmente. Eu mudei - me de cidade, em parte para não ver o namoro dos dois, em parte porque meus pais incentivaram - me a ficar independente o mais cedo possível.
O caso é que o namoro dos dois não durou tres anos, mas a estas alturas eu estava noivo da Teca. Há anos eu não via Regina, mas Fernando me garantiu que ela estava até mais bonita, desquitada e morava sozinha, então...
Bem, não custava tentar, não é ? Quer dizer, seria muito melhor encontrar outra mulher caso a Teca não arredasse pé de sua decisão.
O Fernando ao divorciar - se correra atrás de uma ex - namorada e rapidinho mudou - se para a casa dela. Foi uma boa saída pois só com o salário de professor não daria para pagar aluguel de nenhum lugar decente aqui em São Paulo, e a Heloísa tem apartamento próprio e um excelente emprego.
Bom, a jogada foi armada. Fernando provocou um encontro casual entre nós dois na Festa da Tainha, e como Regina se mostrasse muito alegre com o reencontro, eu propus que nos encontrássemos na praia, na manhã seguinte.
Praia - almoço - cama - a seqüência foi executada com perícia de mestre e nem me dei ao trabalho de representar o apaixonado, pois Regina despertou em mim o adolescente de uma década atrás.
Apresentar minha verdadeira situação econômica seria complicado. Um profissional de nível universitário como eu, desempregado e sem nenhuma chance de voltar a atuar em sua profissão é algo difícil de explicar a contento. Meu gênio terrível, algumas infantilidades - como o dia em que faltei ao serviço para participar de um concurso de planadores - empurraram - me para uma série de demissões.
Finalmente eu vendi tudo o que tinha e comprei umas terras lá em Mato Grosso, em sociedade com meu irmão. Logo ficou claro que, com a inflação galopante e o alto custo da mão de obra, aliada à nossa inexperiência, o empreendimento malograria mesmo sem a intromissão do malfadado Plano Cruzado. Meu irmão voltou para São Paulo e me deixou teimando com a terra, sem dinheiro e sem recursos, até que caí doente de malária e quase morri, depauperado e pluriinfectado de vermes.
Uma irmã emprestou - me o apartamento em São Paulo, e para cá vim mendigar um emprego, mas com o meu curriculum... O mundo das firmas é implacável em seu código de ética, não perdoa as assim chamadas loucuras da juventude.
Teca cozinhava para fora, oferecia - se como diarista freezeira.
É claro, há a firma. Assim, apresentei - me como empresário - eu e meus tres sócios - o problema é que a firma até agora não deu lucro, embora estejamos com muitos projetos e negócios em potencial engatilhados (sonhos) e passo meus dias a programar softs que ninguém compra. Tenho muitas idéias e grandes esperanças de dias melhores. Enquanto esses dias melhores não chegam, eu vou vendendo computadores e dando aulas em uma escola de computação.
Eu também disse a ela que estou economizando para comprar um carro. Mais alguns meses...
O problema mais urgente é que, Teca indo embora, eu tinha de devolver o apartamento para o novo dono, pois minha irmã o vendera e eu me comprometera a sair até o fim do ano. Ir para onde, meu Deus ?
Teca limpou o ap. Deixou - me o fogão, a máquina de lavar, uns trastes velhos e o colchão com duas mudas de lençóis. Acho que ela se condoeu ao imaginar - me dormindo no chão.
Na casa de Regina tudo é limpinho, arrumado, bonito. Ela comprou um terreno e está construindo uma casa “para não ter de ir armar suas palafitas em terreno da marinha durante a noite e tornar - se favelada, caso o aluguel suba muito”, diz ela a brincar.
Eu ofereci - me para ajudar na construção e ela recusou. É claro, se ela aceitasse eu lançaria mão de pretextos para não morrer com a grana, de qualquer forma ela facilitou as coisas para mim.
Vivemos meses de grande paixão - jantares, motéis e flores. Nesses meses só citei por alto que teria de devolver o ap, mas frisei que já estava tudo acertado com meu sócio Miguel, para eu ficar morando provisoriamente com ele, afinal, ele mora ao lado do escritório. Mentira, pois Miguel fugiu para a Bolívia dando um desfalque na firma e deixando dezenas de dívidas nas nossas costas.
Na verdade eu pensava que Regina já estava amaciada para aceitar - me em sua casa. Mas ela não é nenhuma tola e não concordou e eu perdi a calma.
Meu desespero por de repente não ter onde morar soltou - me a língua. Acabei falando bobagens, fui agressivo e grosseiro com ela, tentando manipular suas emoções e acabei deixando vazar toda a história do Fernando, não adiantou dizer que gosto mesmo dela, que estou sinceramente apaixonado.
Regina simplesmente lamentou minha falta de sorte. E disse que não quer ver - me mais. Ela portou - se com muita, muita classe, e eu senti - me um completo idiota.
Vou levar o fogão e a máquina de lavar para guardar na garagem de meu irmão, se ele concordar.
É como eu sempre digo : as pessoas tecem suas vidas com suas ações. Eu sou o responsável por minhas desgraças pessoais, não dei certo, embora continue tentando.
Mas aonde morar, Deus meu ?
E sozinho...
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