Era uma vez... uma garotinha que voltava da escola com a prima. Vinha de cabeça baixa porque estava procurando sementinhas para chutar. Então...
- Chuvinha de ouro! Chuvinha de ouro!
A prima sacudia de leve o tronco de uma árvore alta de folhas miudinhas, que, ao final da primavera, ficavam amarelas. Centenas de pedacinhos dourados caíram de uma só vez em torno delas.
- Ah, que bonito! – a menina começou a rodar debaixo da chuvarada de ‘ouro’.
A menina ria. A prima ria. Havia no ar perfume de flores. O sol aquecia o mundo agradavelmente e a brisa morna trazia o cheiro do mar.
A menina cochichou para a prima:
- Vou contar um segredo. Essa é uma árvore que canta.
Um som agudo, forte e bem ritmado fez-se ouvir. E a menina colocou a mão no tronco, sentindo o tronco vibrar:
- Ponha a mão aqui assim. Sente. Ela canta.
A prima riu e começou a andar em roda da árvore. E roda daqui, roda dali, encontrou a cantora.
- Olhe, querida, aqui está sua cantora.
- Ai! – a menina pulou de susto. Um inseto do tamanho de sua mão, preto, gordo, de olhos esbugalhados e grandes asas transparentes, tremia fazendo cra cra cra cra cra cra cra cra cra crrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii....
- Que é isto?
- Uma cigarra.
- É? Agora entendo porque a formiga da fábula não quis dar comida para a cigarra no inverno. Só no jantar a cigarra acabaria com tudo.
A partir deste dia, durante todo o verão, a menina procurava por cigarras olhando cada árvore do caminho. As cigarras se escondiam bem.
Os dias esquentando, as cigarras cantando...que tempo bom!
Certa tarde a menina parou à sombra da árvore que cantava. O ar tremeu quando uma orquestra de cigarras começou o seu concerto, tão alto e tão forte que a menina não conseguia ouvir a própria voz. Ficou ali escutando, vibrando junto, e descobriu que a música cigarra tinha sons de castanholas e de violinos. Tanta cantoria deixava a menina tonta.
Por semanas a menina acordou e adormeceu com o canto das cigarras. Os bichinhos – ou bichões – cantavam e cantavam e cantavam até rebentar. A menina sabia disso porque o pai encontrara uma casca seca de cigarra e mostrara para ela:
- Esta já arrebentou. A cigarra cresce, ‘muda de roupa’ e deixa a casca velha abandonada no tronco.
A menina guardou a casca vazia em uma caixa e levou para a escola, para mostrar para as colegas.
O verão passava, as cigarras cantavam e a menina ficava horas a escutar, a procurar pelas cantoras. Até que um dia...
A menina escutou um som estranho. Demorou para entender que era o silêncio. As árvores estavam mudas. Acabara a época das cigarras.
A menina suspirou:
- Vou ficar esperando pelo verão até ouvir a primeira cigarra cantar. Vou sentir falta da minha árvore que cantava.
E o tempo foi passando.
Até que, em um outro dia, a menina e a prima estavam justamente passando pela árvore da chuvinha de ouro, procurando por sementinhas no chão para chutar. Era divertido. As sementes pulavam e rolavam dando estalinhos. De repente....
Criiiii criiiiii criiiiii......
- Olhe, prima, ouça, a árvore está cantando de novo! – e a menina piscou para a prima, pois ambas sabiam que era apenas um grilo.
A árvore era o palco da bicharada cantora. A menina, porém, sempre podia ‘fazer de conta’.
Faz de conta que, era uma vez, uma árvore que cantava.
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