Foi como se eu abrisse os olhos e me enxergasse no meio de um pesadelo. Ou como se eu recobrasse subitamente a memória, após um longo período de amnésia, em ambiente hostil e aterrador.
O que é que eu estava fazendo ali, por Deus ?
Em plena madrugada, em meio a marginais, no coração da favela, a olhar um cadáver ...
Há dois anos eu vivia assim. Aos poucos tornava - me insensível, mas aquilo ...
Eu estava em uma espécie de barracão.À frente, em uma mesa enfeitada com flores, toalha branca de rendas, inúmeras imagens de santos, fitas coloridas e velas acesas.
No meio, deitado em uma esteira, cercado de flores, pés e mão atados, o rapaz degolado, o cogumelo espumante de sangue já duro e fétido, impressionante .
A vítima de uma missa negra.
A enfermeira grávida torcia as mão e gemia :
_ Ai, doutora, que meu filho nasce antes do tempo ! _ de quem fora a infeliz idéia de escalar uma grávida para o serviço de ambulância ?
Uma mulher impossível contava que o filho _ o degolado _ fora jurado de morte, bem como o marido e o caçula, que já haviam sido executados na semana anterior.
A favela nos espreitava na escuridão anormal dos barracos silenciosos.
Os dois guardas mostravam - se apreensivos. A favela é, por natureza, barulhenta e promíscua. Aquele silêncio denunciava o pior _ o chefão, fosse lá quem fosse, estava envolvido.
- Vamos rápido, que eu estou com medo _ disse um dos guardas.
- Sua função não é ter medo, é proteger.
- Se eu morrer, doutora, não poderei proteger ninguém.
- Animador ...
A noite estrelada, sem lua, completava o cenário propício ao medo.
Pensei na amorosa avó que me criara. Que diria ela se soubesse aonde estava àquela hora e em que companhia a sua menininha ?
Que fazia eu ali, a garotinha mimada de colégio de freiras só para moças de boa família, em meio ao bas- fond ? Pois há dois anos eu vivia entre toxicômanos e meretrizes, assassinos e ladrões, movida pela mórbida curiosidade pelo lado podre do ser humano, curiosidade insaciável, patológica... até aquele momento.
Agora estou curada.
Demiti - me do P.S. da zona portuária de S antos.
M as por que ...por que ... eu sentia tanta curiosidade pelo lado escuro da vida ?
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