30 de mai. de 2010

conto - Enfim...livre!

Eu sempre soube que seria assim: certa manhã eu acordaria e tudo estaria normal.
Eu esqueceria os anos de angústia, o medo constante de que percebessem a verdade, o disfarce cuidadoso de todos os instantes, o fingimento contínuo de normalidade.
Ah, se alguém soubesse! Se alguém sequer desconfiasse da presença deles, se alguém notasse que eu recebia ordens, se alguém deslumbrasse um pedacinho do inferno por detrás do muro, ou percebesse a tirania das vozes, ah, eu estaria perdido, enclausurado eternidade afora em algum hospício, supliciado, drogado, anulado, desacreditado e inútil.
Nem a arte seria suficiente para proteger - me do estigma da excentricidade, mesmo que eu tivesse o talento de um Dali, de um van Gogh. Ah, eu queria somente a felicidade de ser como toda a gente.
Tanto o desejei que aconteceu. Como diz o provérbio: “Cuidado com o que pedires, pois te será concedido”.
Um dia... acordei e o mundo voltara ao normal. O muro caíra. As vozes se calaram. Que alívio! Dos gestos triviais fluíam gostosamente a alegria de viver e o afeto por meus desassemelhantes.
Sem o fardo da incompreensível moléstia, passei semanas longe dos pincéis, em companhia da família e dos amigos, compartilhando secretamente com eles o milagre da cura. Até arrumei uma namorada.
Eis que no início da semana recebi um convite para uma exposição e tranquei - me no estúdio, esperando a tempestade criativa que me inunda de tempos em tempos.
Então, e só então, percebi o vazio estéril de minha alma. Concentrei - me... e nada. Onde o atropelamento de idéias originais e incríveis jorrando generosamente do cérebro excitado? Onde o espoucar de formas e cores? Onde a magnífica intuição do belo?
Ah, compreendi, a angústia, o sofrimento, a insatisfação, a dor, eram o combustível da inspiração. O ato criador, sendo um ato de tensão, fenece na tranqüila monotonia da vida comum.
Conquistei a paz. Estou curado. Mas a que preço, a que preço! Condenado à estéril mediocridade.
Eu, que pensava abominar a solidão moral que me excluía do convívio humano, descobri que o único prazer que desejo neste mundo é aquele provocado pelo lampejo do gênio.
Quero de volta o inferno, se este for o preço de meu talento.
Tarde demais. As vozes calaram - se para sempre. O mundo invadiu meu universo e no lugar da minha máscara encaro no espelho um rosto massificado.
Por isso vedei portas e janelas e abri o gás.



Publicado 1999 no livro:
CONTOS DE TERROR
(porque possíveis...)

Não adianta trancar as portas e as janelas. O inimigo já está dentro de casa. Neste momento mesmo, pode estar à espreita....

“A desgraça é variada. O infotúnio sobre a terra é multiforme.” – Edgar Allan Pöe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário