Venci !
Eu o matei.
Ele queria levar - me à loucura... mas eu fui mais forte que ele... eu sou resistente, eu sou dura. Sou mulher.
Acho que eles, os invasores, não conhecem as mulheres. Pensam que somos frágeis. Pensam que podem torturar - nos, sem que esbocemos quaisquer reações. Que tolos ! Mas, este, eu o matei. Eu o matei.
Sabem como começou ? Vou - lhes contar.
Ele entrou aqui e matou o meu filho. Apoderou - se do corpo do meu querido filhinho.
Podem imaginar meu desespero ? Debrucei - me, certa manhã,sobre o berço de meu filho e meu filho não estava lá. Em seu lugar, o invasor ...
Talvez ele pensasse que eu não notaria a diferença, não é ? Mas qual é a mãe que não reconhece o seu filho ?... E , depois, esses invasores, eles não conhecem a nossa raça, nada sabem sobre crianças.
As crianças, todos sabem, são a alegria de suas mães... Quando uma criança sorri, a alma de sua mãe se enche de felicidade... E quando mama, então ? Ah, que satisfação !... Que prazer ! Que sensação maravilhosa !...
Está tudo escrito nos livros, vocês podem ler : “ As crianças sadias mamam de tres em tres horas, dormem tranqüilamente nos intervalos das mamadas se não sentem fome, frio, sede ou calor. Quando chorar, a criança deve ser limpa, e após trocar - lhe as fraldas, a mãe deve agasalhá - la convenientemente , alimentá - la e acalentá - la ao colo por alguns minutos e ela logo voltará a adormecer. Como um anjinho...
Como vocês podem ver, os invasores não entendem nada de crianças.Eu percebi de imediato, assim que o peguei ao colo, que aquilo não era meu filho.
Como ?
Senti raiva dele. E nojo, quando aquela coisa quente e suarenta se grudou em meus peitos e o leite começou a jorrar pelos dois bicos. Pelos dois ! Como um chafariz.
E o choro ? O tempo todo ! O tempo todo aquele nhec nhec nhec nhec nhec nhec nhec nhec nhec buááááááááááá..... E dá o peito e troca a fralda e pega ao colo e vomita e limpa e chora e dá o peito e troca a fralda e pega ao colo e CHEEEEEEGA !!
Ele nem olhava para mim quando mamava. Não. Mantinha os olhos fechados. Só queria o meu leite. O esganado ! A toda hora.Quinze vezes no dia, eu contei. Anotei tudo direitinho para mostrar ao médico.
Perceberam ?
Não era o meu filho, pois as crianças não se comportam assim. Era ele ... o invasor.
Mas eu o matei. Venci.
Ele invadiu meu corpo, meu tempo, minha casa, até o meu pensamento ele invadiu ! Ele queria matar - me, implacável em sua perseguição, em sua tortura .
Eu não podia ao menos fazer xixi que ele não chorasse bem na hora para impedir - me de urinar. Banho ? Ah, ah, ah... Luxo ! Mãe não tem direito a banho. “ Ela que tente entrar no banho que eu choro... choro ...” e o som do choro daquele desgraçado ouvia - se lá da esquina. Corria todo o mundo a saber porque o estafermo chorava, até os vizinhos telefonavam, pois estupor não chorava, berrava como um demônio possesso, seu guincho estridente penetrava pelo meu cérebro adentro e ficava soando, soando ... “Não, senhor, ele não está doente, não. Também não é fome. É só que a mãe dele queria tomar banho ”. “ Não, senhor, eu não o estou espancando, não. Eu não o odeio, não , senhor, muito pelo contrário, é ele quem me odeia”’... Ele me odeia. Ele quer matar - me. Ele vai - me matar !
Vocês acreditam em extra - terrestres ?... Eu sempre acreditei. Eles estão entre nós, disfarçados. Mas quando digo isto ao meu marido ele retruca : “ Bobagens !”
Como é que eu ia explicar a ele sobre o invasor ? E explicar que nosso filhinho fora assassina- do ? Como é que eu ia explicar ?
O invasor sugava a minha energia. Depois invadiria o meu corpo, como fez com o do bebê. É assim que eles sobrevivem, sugando nossa energia entrando em nossos corpos... eles não tem corpos... precisam dos nossos...
Mas eu não quero morrer !
Ele vai - me matar, ele vai - me matar e eu não quero morrer, socorro, ajudem - me !
Eu não quero matar ninguém... entendam.. eu sou boa... não quero matar.. mas se eu não o mato, é ele quem ma mata...
Ele sugava o meu leite, a minha energia, apoderou - se de todo o meu tempo, controlava a minha vida inteira, minuto a minuto, até meus pensamentos ele invadiu com seu choro contínuo, eu não podia mais pensar, NÃO HAVIA ESPAÇO PARA MIM !
Vocês compreendem, não é ?
Eu estava só me defendendo, ele ia matar - me !
Eu fiz um bem. Livrei o mundo de um monstro ! Eu o venci !
Mas ninguém acredita.
O médico, o meu marido, o delegado de polícia... sabem o que eles dizem ? ... Que matei o meu filhinho querido, como se eu não fosse a mais abnegada das mães. Mãe. Eu sou mãe ! Quero o meu filhinho que o monstro matou !
Eu preciso contar a todos sobre os invasores, convencê - los da existência deles, para que eles não matem mais crianças, para que eles não se apoderem da Terra...
Mas, agora, eu estou exausta...
Amanhã eu os convencerei de que falo a verdade. Estou há dois meses sem dormir...
Amanhã...
Hoje eu PRECISO dormir.
Publicado em 1999 no livro:
CONTOS DE TERROR
(porque possíveis...)
Não adianta trancar as portas e as janelas. O inimigo já está dentro de casa. Neste momento mesmo, pode estar à espreita....
“A desgraça é variada. O infotúnio sobre a terra é multiforme.” – Edgar Allan Pöe.
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