31 de mai. de 2010

crônica - O caso do Zé Picadinho

Quando meu professor de psiquiatria acabou comigo na frente da classe, a turma estava discutindo os casos do sujeito que botou fogo no índio – e justificou dizendo que pensara que ele era um mendigo, como se em mendigo fosse permitido botar fogo – e outros, como o do pai que jogou a filha pela janela, e da estudante de direito de dezenove anos, que assassinou os pais a facadas por motivo fútil.
Então o professor chamou-me de preconceituosa e outros epítetos mais. Eu, como não especialista, que poderia responder?
Tudo porque eu comentara que psicopatas não tem cura.
Depois de me espinafrar, a título de ilustrar sua opinião, meu professor contou uma história incrível, porque real, dos tempos em que ele trabalhara no presídio.
Lá tinha um assassino em série, o Zé Picadinho. O apelido carinhoso devia-se ao costume que tinha o criminoso de picar suas vitimas em pedacinhos dos quais ia se livrando aos poucos, uma perna aqui, uma mão ali...
Ora, no presídio, o Zé ficou mansinho, educado, uma verdadeira ‘moça’, no sentido antigo, quer dizer: gentil, que as moças de hoje, de dóceis não tem é nada, e algumas são bem incisivas e até agressivas.
Pois o psiquiatra responsável pelo Zé resolveu dar ao juiz seu parecer de cura – podiam soltar o homem sem perigo. O profissional tomou o cuidado de, em uma reunião com todos os outros colegas, debater a questão, e todos, em unanimidade, concordaram que o sujeito estava curado.
Um mês depois acharam uma mala na rodoviária, cheirando mal, com uns braços dentro... depois, uma cabeça, enterrada em um parque público... uma mulher desaparecida, depois outra, outra cabeça em outro parque, outros braços em outra mala... em tudo a marca do Zé Picadinho.
O psiquiatra que deu o parecer de cura perdeu o cargo, está respondendo a processo, o Zé foi de novo trancafiado, e adivinha – depois disso, nenhum outro psiquiatra teve coragem de dar alta para outro psicopata assassino, vai que o sujeito depois de solto voltasse a matar...
E aí, eu me pergunto: a história do professor não confirma o meu pós – e não pré – conceito (pois antes de dar minha opinião li um bocado a respeito do assunta) de que, uma vez psicopata, sempre psicopata?
Não questionei sua lógica – ou a falta dela.
Sei não - psiquiatras, melhor não contrariá-los.

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