28 de mai. de 2010

conto - Aguarde na fila

(história real)

Fila é ótimo local para sociólogo estudar povo – pobre povo brasileiro, como poderia ser diferente, se lhe falta o básico: a casa, o emprego, a escola.
Na fila do INAMPS, por exemplo, há quem procure o especialista em “figos”, surdos em busca do “Dr. Rino” e o homem que quer porque quer marcar consulta com o ginecologista por estar com ‘doença de mulher’. Também há os que não desejam consulta nenhuma. Absolutamente! Querem tão somente uma receita ou um pedido de exames. E quando a balconista tenta explicar que só o médico pode fazer estes pedidos, das duas uma: ou recomeça a ladainha ou põe-se a reclamar do funcionário público vagabundo que trata mal o público.
Um dia desses um fiscal do INAMPS que, vistoriando o posto, percorria os vários setores, na louvável intenção de compreender in locu todos os entretantos, chegou-se ao balcão de marcação de consultas e cortou o primeiro da fila, dirigindo-se diretamente ao funcionário atrás do balcão:
- Com licença, eu sou fiscal do INAMPS e preciso de umas informações.
- Pois não. Aguarde na fila.
- Eu sou um fiscal do INAMPS.
- Está certo, mas aguarde na fila.
- Você não entendeu? Eu sou um fiscal!
- Próximo, por favor. Meu senhor, mesmo sendo um fiscal, o senhor tem de aguardar sua vez na fila.
- Eu não vim marcar consulta!!
Furioso, o fiscal escreveu um relatório a quem de direito, solicitando a imediata suspensão do funcionário, que, para surpresa do fiscal, explica-se administrativamente, através de uma carta, da qual extraio um trecho mais ou menos assim:
‘Todos os dias agendo consultas para várias especialidades, inclusive psiquiatria. Em minha rotina diária atendo todo tipo de gente importante: o presidente do Brasil, o prefeito, Jesus Cristo, artistas e cantores famosos, e, recentemente, dirigiu-se a mim um fiscal do INAMPS’.

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