28 de mai. de 2010

crônica - Agora

publicada na Agenda Um Dedo de Prosa - 1998

Lá estávamos, os primos em segundo e terceiro graus, os que se reúnem esporadicamente nos casamentos e batizados da vida, após anos de ausência, com o mesmo nostálgico sorriso de ‘lembra-se de como brincávamos juntos na casa do avô?’ e com o mesmo suspiro fatigado de ‘ah! esta vida corrida que a gente leva!’
Cada festa em família reacende o desejo de compartilhar, pois, afinal, esta é a finalidade da família; durante alguns dias pensamos em promover uma churrascada ou um passeio, mas logo o cotidiano empurra rotina abaixo nossas boas resoluções.
Aí passam-se dois ou três anos até que alguém se case ou batize um filho e é aquela alegria do reencontro, aquela sucessão de calorosos abraços e as trocas de confidências, piadas e receitas.
A última reunião, contudo, foi bem diferente.
Os abraços até que forma mais calorosos, os sorrisos mais amigos, as conversas mais prolongadas, mas havia aquele incômodo constrangimento no ar.
É que a reunião familiar, inesperada, urgente, era um velório. E o primo que falecera nem era o mais velho de sua geração. Os sussurros, aqui e ali, estremeciam os ouvintes:
- Eu o carreguei no colo.
- Brincamos juntos.
- Eu me lembro bem de quando ele nasceu.
- Tão moço... tão bonito...
Agora, à medida que o tempo vai passando, dia um, dia outro, dá o seu recado: hoje um telefonema, amanhã uma rápida visita, e o primeiro que aniversariou levou um susto: a casa cheia de parentes.
Tenho certeza de que de agora em diante será assim: aniversários concorridos no decorrer do ano, por duas razões. A primeira é que nos demos conta de que a morte não escolhe idade. A segunda é como diz o avô:
- “Não quero saber de flores sobre a minha tumba. Quem quiser demonstrar o seu amor por mim, trate de fazê-lo enquanto eu estou vivo.”

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