28 de mai. de 2010

A incrível história de Abigail

- Cada um tem exatamente aquilo que merece - quantas vezes eu não afirmei, maldosamente até, referindo - me aos pesares alheios e às vezes acrescentando algum provérbio popular do tipo “quem semeia vento colhe tempestades” ou “cada um faz a sua cama”.
Como eu era pedante, intolerante, sobretudo tola. Paguei por minha língua bem caro.
Em primeiro lugar, a gravidez. Jesus, como é que eu ia explicar aquilo em casa? E na igreja, como é que eu ia contar ao pastor? Quero dizer, quando se tem 23 anos, um diploma universitário e uma severa educação crente.
Eu e minha prima fôramos passear em Camboriú. Conhecemos uma turma divertida na praia , pela manhã, e ao final da tarde, sentamo - nos a tomar sorvete. Minha prima foi chamada ao telefone e um dos rapazes convidou - me a caminhar junto ao mar. Que poderia haver de mais inocente que um passeio à beira - mar, de dia, em público ? Esse rapaz tocava violão e sem dúvida percebera a emoção que a música despertava em meu íntimo. Ele me disse que, no fim da praia, sobre os penhascos, avistava - se uma magnífica paisagem ao por do sol. Fomos até lá, ele gentilmente elogiando minha aparência e minhas opiniões e eu sorrindo embevecida por ouvir tantas coisas agradáveis.
Sobre as pedras, estávamos à vista de todos. Ele saltou para uma depressão entre as rochas, que nos ocultava, e chamou - me para ver nem me lembro mais que coisa bonita. Quando me aproximei, enlaçou - me por trás e beijou - me os ombros, a nuca... De tão surpresa, demorei um instante a reagir. Instante fatal! Um langor, um frêmito de desejo percorreu - me, a mim, tão ignorante de meu próprio corpo. Tentei correr, ele segurou - me firmemente e calou - me com um beijo. Debati - me, lutei, no entanto lutava contra dois inimigos: ele e meu corpo. Implorei que era virgem, que me respeitasse, que viria gente, que nos surpreenderiam. Debalde. Senti - me estuprada e no entanto de que maneira tão suave e doce...
- Está vendo, minha flor? Não te quero mal, só quis fazer um bem e te dar alegria a nó dois, minha bela flor de maracujá.
E assim falando , conduzia - me de volta ao hotel, como se conduz uma criança. Eu mal sabia de mim, andava como que em um sonho. Na manhã seguinte, ele deixara o hotel, mas consegui o endereço dele com a funcionária da recepção, a pretexto de enviar - lhe um postal.
Recife. Quão longe, Virgem Santíssima! E meu pessoal detesta nordestino, essa gente tão diferente de nós, sulistas, que até parecem ser um outro povo.
A vergonha, a confusão, eu escondi. Mas e o filho, Deus meu? Quando percebi a gravidez, sofri demais. Grávida de um desconhecido! De um estupro, pois não deixara de o ser.
Eu tinha de cumprir o meu dever.
Escrevi para ele, não obtive resposta. Corajosamente, tirei férias e parti à sua procura. Recebeu - me sorrindo, porém insultou - me ao perguntar se eu garantia que o filho era dele, se eu não saíra com outros homens. Tentou induzir - me a um aborto. Procurei os pais dele e contei minha história. Afinal de contas, disseram eles, eu era uma paulista desavergonhada, que esta gente do sul não tem moral nenhuma e suas mulheres comportam - se como homens. Envergonhada, chorei. Disse - lhes : “Sou crente, vivo de acordo com a religião, não mereço isso”. A estas palavras, estudaram - me com atenção e condoeram -se de minhas lágrimas.
Passarei por cima das cenas lastimáveis que assisti entre pais e filho, eu, na casa de um desconhecido, forçando um casamento com um homem a quem só vira uma vez em circunstâncias tão humilhantes, entregando - me a um futuro incerto para garantir um nome a uma criança, poupar meus pais da vergonha, proteger - lhes a honra, coisas que para eles e para mim também tinha muito valor e agora parecem - me somente um amontoado de tolices.
Abandonei o emprego, anunciei meu noivado, mudei de cidade, casei - me em dois meses. Meus pais, que ignoravam minha gravidez, irritaram - se muito, não simpatizaram com Rui e não compreendiam meu desatino. Minha pobre mãe deve ter compreendido a pressa ao fazer as contas quando minha primeira filha nasceu, contudo não deve ter entendido quando eu engravidara.
Meus sogros obrigaram Rui a procurar emprego e estudar à noite. Ele não agüentou o ritmo do trabalho, abandonou os estudos, começou a beber, ofendia - me com um vocabulário horrível, acusava - me de haver - lhe estragado a vida, fazia cenas de ciúmes... Não demorou a perder o primeiro emprego, depois outro e mais outro, não esquentava lugar. Eu sustentava a casa.
Eu sofria e chorava ao escrever a meus pais, mas eles retrucavam que eu escolhera minha sina e não devia reclamar.
Surpreendi Rui em atitude íntima com a vizinha. Não disfarçou. Que homem pode. E deve. E toda uma barbaridade de um palavrório machista.
Passou a não fazer mais segredos de suas aventuras, ao contrário, delas narrava - me os detalhes mais eróticos. Se eu me recusava a ele, forçava - me a coisas das quais me envergonho. Era preferível ceder e com terror eu percebia meu corpo responder a ele como a um virtuose que tocasse seu violino arrancando dele refinadas e doces melodias.
Quando nasceu a criança, ele emocionou - se a tal ponto que alimentei esperanças de vê - lo modificar - se. Ele desejava um filho homem, um macho. Nascera uma menina. Ele insistia: “Vamos fazer outro já”.
Meu corpo mal se recuperara da primeira gravidez e já esperava o segundo filho, na ilusão de que ele abandonasse as outras mulheres e resolvesse ser um bom pai de família.
Ele desempregou - se uma vez mais e viemos para o sul, morar perto dos meus, quem sabe se freqüentando um ambiente religioso e longe das más influências...qual! Vi - me envolvida em outro pesadelo familiar, quando ele tentou seduzir minha própria irmã. Meus pais não entenderam que eu o apoiasse, porém eu estava grávida e era meu dever permanecer ao lado do pai de meus filhos e garantir um lar para as crianças.
E então ele trouxe outra mulher para dentro de casa e quase enlouqueci pois ele disse que queria assim mesmo, as duas morando na mesma casa... e ela grávida também!
Foi a outra quem resolveu a questão, quis mudar de cidade e casar. Ele pediu o divórcio e deixou - me.
Passaram - se tres anos antes que ele finalmente aparecesse “para visitar as filhas”. Empurrou - me para o quarto com aquela tão sem cerimônia desavergonhada de quem não pede, manda. Nem viu as filhas, que estavam na escola, mas deixou - me grávida de novo.
Não pude explicar esta nova gravidez a ninguém. A coitadinha nem sobrenome de pai teve.
Passaram - se mais dois anos, eu sempre trabalhando, rezando e levando minha vida honestamente, trabalho - casa - igreja, sem tempo para mim, sem tempo para diversões.
Ontem atendi ao telefone, era ele. Fui encontrá - lo qual um autômato, quando o vejo parece que entro em transe hipnótico, não posso resistir - lhe. Ele trouxe a outra junto, diz que nos ama igualmente. Nem perguntou pelas meninas. Tem com a outra um “macho”, com o nome e a cara do pai. Tornou - me a convidar - me para ir morar com eles, tudo uma só família.
Levou - me a um quarto de hotel, quanto mais penso nisso, mais nauseada fico.
E se eu engravidei de novo ?

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